domingo, 14 de setembro de 2014

criados-mudos

Os criados-mudos são móveis absolutamente importantes
por vários motivos
por que não falam
por que são a cabeceira que faltava aos livros de cabeceira que eu não lia por não ter uma cabeceira

porque estão aqui como se sempre estivessem

domingo, 19 de janeiro de 2014

Maconha e tomates

Em 2013 comi menos tomate do que eu queria. Adoro tomates. Mas teve vezes que comer queijo gouda tava mais em conta do que comer tomates. Não que eu tenha comido queijo gouda. O preço por 30 gramas também tava impraticável. Mais vergonha do que a passagem de ônibus tá mais cara que a maconha é o preço do tomate com queijo gouda permitir dar uma volta completa ao Brasil de ônibus. Fumando maconha. Nesses primeiros dias do ano, atravessando a rua para chegar ao supermercado comprar tomates, vi um velho gordo. Não estava tão quente mas ele suava, estava esturricado. Empaturrado. O que ele carregava por dentro saía pelos poros. Um nojo.


Passei sem cumprimentar, rumo aos tomates. R$ 2,98. Preço bom de ano novo. No supermercado aqui perto de casa se pesam os tomates e os demais hortifruti direto no caixa. Não tinha mesmo necessidade de se empregar mais uma pessoa só pra isso, se a moça ou o moço do caixa conseguem pesar, passar os produtos pelo código de barras, oferecer nota legal, dotz, receber pagamento de conta, botar um creditozinho no cel, ajudar a empacotar e ainda dar bom dia. Pra quê mais um?

Aí dou aquela firulada pelos caixas, à espreita, querendo dar o pulo do gato pra ver quando vão finalmente utilizar algum dos 12 dos 20 caixas que sempre estão fechados. Não rolou de novo. Mas me esgueirei e entrei no caixa 2, o preferencial pra gestantes, crianças de colo, idosos e deficientes físicos. Sempre dá vontade de pegar o filho de alguém no colo para apressar a fila. Dessa vez não precisou. O movimento tava razoável. A menor fila era essa. A fila do caixa 1, EXCLUSIVO, só tinha uma pessoa também, mas daí já era vandalismo. Estava lá. Só com os tomates. Carrinhos e carrinhos passando cheios de coisa. As filas rápidas para até 10 itens processavam 20, 30 produtos. Foda-se. Quem compra mais pode passar na fila menor, acho que essa era a filosofia do lugar. Então eu nunca entrava nessa tal de fila rápida que demora mais que fila do banheiro químico do réveillon de Copacabana, tipo descer para Santos em feriado.


E lá estava apreensivo, porque o tiozinho da frente não terminava de empacotar e a moça esperando ele dizer a forma de pagamento. Tava na cara que não era dinheiro, apesar de que essa época do mês, dia 9, é o dia que eles carregam todo seus trocos na carteira ou naquele bolso da frente da camisa. E o cara finalmente disse débito. E chega um outro senhor nessa fila. PORRA. A exclusiva sem ninguém e ele PREFERIU a PREFERENCIAL. Aí apelei que só tava com os tomates e ele, super relax, deixou eu ficar. “Pode comprar até mais coisas” resmungou com ar de avô. “Não, não. Só isso por hoje” respondi entre os dentes. Nisso ele olha, se dá conta do óbvio, quase infarta de alegria pela descoberta de que a fila ao lado estava vazia. Tocou o carrinho e se foi. Foi ele sair da moita e veio outro. Repeti o apelo. Era outro senhor. Ele deixou de boa. Sem comentários. Leve movimento positivo de cabeça. Tudo isso acontecendo e o amigão da frente não saía. Tava pago, mas resolveu ENCAIXOTAR as compras com o carrinho no caminho e a parte de empacotar lotada. E eu “caralho, essas porras de caixa fechados e essa merda”. Aí veio minha vez. “Olá, bom dia. Nota legal?”. “Sim, dotz também”. E a mina começou a apertar mais botões do que nunca. E a máquina do cartão de drébito, que também serve pra digitar o CPF e a data de nascimento, paralisada. “Puta que pariu” esbravejei pra dentro. E ela tentando. 5, 10, 15 segundos. Intermináveis. Quase como ficar olhando pro relógio do micro-ondas. Sempre que acho que o tempo está passando depressa eu ligo o micro-ondas 1 minuto. Fico ali na agonia do tempo se arrastando, agradeço à vida pelo tempo que passa ligeiro e saio mais aliviado. Despertei do micro-ondas com a caixa gritando para supervisora “o caixa trancou!”. “Caralho” xinguei em voz miúda, engolindo a raiva. A supervisora se atravessou entre eu e o caixa, e você sabe, esse espaço não foi criado para uma pessoa e um carrinho por vez, imagina eu, o carrinho e mais a santa-criatura supervisora. Esmagado, vi a máquina renascer. E num movimento olímpico me atirei digitando o CPF, apertando o verdinho (!) e repetindo compulsivamente “dotz, dotz”. Passaram os tomates, tinha pouco mais de um quilo. Coitados, tinha até esquecido tudo que eu era capaz de fazer por eles. A conta deu uns 3,50. Paguei no débito. Esperei a nota imprimir, ela rasgar o pedaço da nota que fica com eles, tudo para ver que tinha conquistado 1 mísero e glorioso dotz. Saí cansado. Com as marcas da luta na cara, o suor já tinha me atingido.


E o velho sentado na frente do supermercado seguia suando. Iniciativa Privada o nome dele. Suava olhando o movimento. Contemplava a magia da luta pela menor fila, pelo dia da promoção, pelo caixa que estragava, pelo número reduzido de funcionários, pelos aposentados gastando sua fortuna (só que não) no início do mês. Quando saí olhando a nota, a Iniciativa Privada sôfrega me comentou “viu quanto imposto?”. De fato tinha reparado que as notas vinham agora com um valor aproximado dos impostos. Fonte: IBP. Que porra é essa? Instituto Brasileiro de Protestos? (Olha a minha cabeça!). Aí, dos meus tomates, sei lá, uns 29% eram de impostos. Mais que 20 centavos. E o gordo com 100% do dinheiro do meu tomate reclamando de 30% de impostos. Sobre os 70% eu pensei o quanto foi pro agricultor, o quanto pro agrotóxico, o quanto pro caminhoneiro, o quanto pro dono da transportadora que emprega o caminhoneiro, o quanto a gente ajudou a encher esse porco sentado em frente ao mercado. O safado reclamava do imposto quando tava cheio de arrego do governo, manobrava daqui, manobrava dali, sonegava acolá. O imposto que ele pagava era bem menor que o dos tomates. Até achei graça. Quase enlouqueci. Cogitei jogar os tomates no velho.