quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Allende: os sonhos não envelhecem, nem os golpes

por Eduardo Luís Ruppenthal, biólogo e militante do PSOL/RS

11 de setembro de 2008 – Jornais, telejornais, rádio e internet, as notícias desta semana se voltam novamente para o 11 de setembro, o de 2001. Será o último aniversário do fatídico dia com George W. Bush à frente da presidência estadunidense. Para o presidente, o fato ocorrido há sete anos foi um marco para seu governo, além de impulsionar um segundo mandato, justificou o combate ao terrorismo e toda sua política de guerra.  

            Mas, existe outro 11 de setembro, que poucos querem lembrar. E este tem relação direta com o de 2001 e com a realidade atual na América Latina. No Chile, em 1973, as elites econômicas, política e midiática começam a colocar em prática o desfecho do plano de golpe contra um presidente, o primeiro marxista a ser eleito democraticamente no Ocidente. 

            No plano interno, o governo popular que tentava colocar em prática o programa para o qual foi eleito, enfrentava há alguns meses o boicote dos setores conservadores, principalmente através da greve dos sindicatos patronais do transporte rodoviário, com fechamento de estradas e desabastecimento das médias e grandes cidades do país. A crise econômica dificultou a implementação total das reformas sociais como a agrária. Na construção do plano de governo da Unidade Popular, partido de Salvador Allende, tinha a participação de vários exilados políticos brasileiros como Vânia Bambirra (Cientista política e uma das formuladoras da Teoria da Dependência) e Plínio de Arruda Sampaio (PSol/SP e presidente da ABRA – Associação Brasileira de Reforma Agrária).           

            A ajuda externa para a desestabilização vinha de Washington. Grande articulador de vários golpes na região, inclusive em 1964 no Brasil, os EUA apóiam militarmente e ajudam outros setores militares dos países vizinhos a se unirem aos golpistas chilenos. Na economia, os estadunidenses, logo em seguida à posse de Allende, colocam suas reservas de cobre no mercado internacional, fazendo com que o preço da principal commodity chilena despencasse. Podemos relacionar isso com o petróleo, a principalcommodity da Venezuela, mas neste caso, os EUA não possuem reservas disponíveis e sim são grandes consumidores dependentes. Por isso, no petróleo, não conseguem desestabilizar o país de Chávez, como tentam fazer por outros métodos.

             O golpe foi finalizado no dia 11 de setembro de 1973, comandado pelo general Augusto Pinochet que manda atacar o Palácio La Moneda. Ataque aéreo, não o de 2001, mas sim em 1973 a um presidente eleito, ataque com ajuda dos EUA. Está dado o golpe que instaura uma das mais sangrentas ditaduras militares da América Latina, e deixou mais de 3000 mortos, entre eles, o cantor Victor Jara. Ele e centenas de chilenos, com a instalação do golpe militar, foram levados ao Estádio Nacional de Santiago. Palco de tortura e fuzilamento. O presidente Pinochet governa até 1990, 17 anos com mãos de ferro e sangue.

            Hoje, temos novos ventos que vêm dos Andes, na Venezula com Hugo Chávez, no Equador com Rafael Correa e na Bolívia com Evo Morales.  Recentemente outra ventania veio do Chaco, com Fernando Lugo no Paraguai, que varreu o Partido Colorado do poder, depois de 60 anos. Pelo jeito, a democracia está consolidada e que fatos como o 11 de setembro de 1973 não acontecerão mais. Será? Engano, que a nossa mídia local quer nos fazer crer. Em 2002, tivemos a tentativa de golpe na Venezuela, mas a população desceu às ruas e exigiu a volta do presidente.

             No Paraguai, agora no início do mês de setembro, duas semanas após a posse, o governo denunciou a conspiração que setores reacionários e conservadores aliados a militares estavam em tentativa de golpe. A ação foi repudiada por todos os países vizinhos. Mas, atualmente o caso mais parecido com o Chile de Allende e que perdura desde o início da sua posse é a Bolívia de Evo Morales. Ontem, 10 de setembro, depois de dias de tumultos, protestos contra o governo, boicotes, saques a instituições estatais por parte da oposição, principalmente nos departamentos separatistas onde se encontram as principais riquezas do país como o gás natural, o presidente boliviano declarou o embaixador estadunidense persona non grata,aconselhando-o abandonar o país. “Não queremos gente separatista nem divisionista, nem que conspire contra a unidade. Não queremos pessoas que atentem contra a democracia”, afirmou Evo, em uma solenidade no palácio de governo. O embaixador tem se reunido com os governadores de Santa Cruz e Chuquisaca, departamentos divisionistas e responsáveis pela atual desestabilização política e econômica.

Neste 11 de setembro, fiquemos atentos, a luta segue, as labaredas se abrirão para toda a América Latina, pois os sonhos jamais envelhecem!

Toda solidariedade ao povo boliviano! Resistência Bolívia! Allende VIVE!

11 de setembro de 2008. 35 anos do golpe.

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