sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Primeiros passos em San Salvador

Meus primeiros passos sozinho em San Salvador foram de uma incógnita total. Sai caminhando sem rumo. A avenida Norte quando cruza a calle Washington é muito pacata. Caminhei mais quatro quadras e vi o movimento. Estava atento a cada detalhe. As casas, as pessoas, as placas. Há publicidade pintada nos cordoes (nao encontrei o acento til) da calçada. Também vi duas pinturas na calçada da FMLN - a Frente Farabundo Martí para a Liberación Nacional, partido do presidente recém eleito Mauricio Funes.

De repente, de dentro, de uma barbearia um senhor me chama para afeitar la barba. Excelente oportunidade. Entrei sem hesitar. Pagaria três dólares pela barba feita e por conversar com um genuíno salvadorenho. Fanático por futebol, me contou lances memoráveis. Como a vitória do Alianza, time local, de 2X1, sobre o Santos de Pelé. Foi em 1965, ele me disse que chegou no estádio às 8h sendo que a partida seria apenas às 16h. Mas conversamos sobre coisas que barbeiros falam pouco no Brasil. Disse que era estudante de jornalismo e ele me deu um mapa do espectro ideológico dos jornais daqui. El Diario de Hoy e La Prensa Grafica sao de direita. O Diario Co Latino de esquerda. Me deu exemplares da semana de cada um deles. Perguntei sobre Funes, a economia do país e confidenciei que estou a caminho de Honduras. Disse que a adoçao do dólar americano como moeda oficial serviu "para fortalecer a economia... dos milionários. Pagamos em dólares e recebemos em colóns (moeda local que foi trocada pelo dólar em 2001)". De Honduras, murmurou ironicamente "Gorilleti, Gorilleti". Essa é a forma como tratam o golpista Michelleti quando o considera golpista e truculento.

Ontem, aprovou-se uma CPI na Assembléia Legislativa Nacional para investigar se a FMLN se utilizou do aparato estatal para prestar apoio a Zelaya. Os deputados da base aliada disparam contra a oposiçao de direita "por criarem uma comissao de investigaçao de apoio a Michelleti". Nessa altura já estava conosco um empresário costa riquenho, radicado em El Salvador há quatro anos, chamado Ricardo Scott. Jovem e ousado trabalha no ramo dos jogos de azar e cassinos. Corre a América Central e alguns países da América do Sul para montar casas de jogos "legais e outras nem tanto assim". O barbeiro Julio, formado em Psicologia pela Universidade Nacional, nao me disse o sobrenome, mas me deu um cartao da barbearia com calendário de 2010. Já Ricardo me deu o telefone e o e-mail para que eu ligue quando retornar de Honduras que ele me mostrará a capital salvadorenha. Agradeci a atençao e segui o caminho. Comprei os jornais de hoje, menos o Co Latino que nao tinha na loja de conveniencias do Posto Shell, que cobra terríveis 3 dólares pelo litro da gasolina comum.

Teria muitas outras coisas a contar, mas relatos muito grande atrapalham a leitura e, no fim, dizem muito pouco.


Deixo aqui minhas pendências: escrever sobre o Aeroporto do Panamá. Sobre a Casa Clementina, onde estou hospedado. Sobre o panfleto que recebi na rua do prefeito de San Salvador Norman Quijano, da partido de direita Arena (sempre arena!), e suas 100 obras em 100 dias de governo.

Tenho escrito um diário à mao. Talvez nunca venha a público, mas quem tiver interesse é só falar.

7 comentários:

Fillipe.r.d. disse...

Rodolfo, é um baita prazer te escrever, dar uma resposta pra ti, nessa situação em que você se encontra. Está fazendo algo que tenho sonho em fazer, ir apurar, com os próprios olhos, culturas, situações políticas e culturais, que entrarão para a história, e você poderá dizer, com orgulho, que foi testemunha ocular. Absorva tudo o que puder, com o povo, como estás fazendo. Boa sorte aí, força, e olho-vivo!
Forte abraço!
Fillipe

Mônica disse...

Filho, começaste um diário, um ensaio sobre o livre caminhar. Estás em pleno exercício daquilo que sempre buscaste, do teu compromisso com a informação, tua impressão sobre gente e suas lutas, enquanto identidade política e social, em busca de terem reconhecidas suas vozes e seus direitos de cidadãos... da abrangência e da singularidade de cada amanhecer/anoitecer em território desconhecido.

Meu amor, com estes passos novos, tu poderás falar com a propriedade de quem tocou e sentiu a textura, que trouxe a impressão digital na face, na mente, na alma... novas identificações, reconhecimento de novos territórios.

Caminhe com passos firmes, mantenha a leveza, interaja com a multidão, porém, procura manter tua essência preservada. Essa é a senha para te manter pleno de poder e força.

Te amo e sou tua companheira, parceira de estrada. Segue tua marcha, daqui vibrarei sempre luz sobre o teu destino!

Besitos,

tua Mom + Linda! : )

Felipe Lins disse...

Hoje fiquei sabendo das boas novas pelo caras pintadas. Te deixo um abraço e uma baita (e boa, sim, boa) inveja da tua viagem. Te cuida, meu caro. Grande abraço e nunca nos deixa sem notícias. Até breve.

dib disse...

San Salvador em festa!
Todos pela América Latina!
Reconhecimento internacional!
Lula líder máximo do Brasil e da América Latina!
RIO 2016!!!!!!!!!!!!!!

SEH disse...

Bah, anota tudo nesse diário véio, e faz exatamente o que está fazendo, para pra falar com o barbeiro, o padeiro, o lixeiro. eles que vão te passar o que de fato ocorre ensses países da América Central!
E baita viagem meu véio!
Ah, SEH - Samir El Hawat

mulheres.ufrgs disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diângeli Soares disse...

Rodolfo! Nao deixa de atualizar o blog! estamos acompanhando! Quero saber a historia do tal panfleto!
Beijao!