sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Correria, adrenalina e cansaço

Como um computador e a internet fazem falta. Essa certamente é a única debilidade tecnólogica que tenho. Quer dizer, a maior. Porque estes teclados sem til e outros sem algumas outras partes constitutivas fundamentais de um texto às vezes me enlouquecem.

Porém, nada disso se compara um bilionésimo do que tenho visto por aqui.

É de fato impressionante.

Depois da repressao da quarta-feita, os militares e a polícia ontem, dia 8, engoliram em seco.

Haviam 800 manifestantes em frente ao Hotel Clarión onde ocorreu a segunda rodada do Diálogo Guaymuras.

Foi uma manifestacao intensa e provocativa. Chegavam na cara da polícia e os chamavam de perros, hijos de las putas, que se vergan e todo mais. Diziam para largar as armar e vir na mao. Pode parecer molecagem de colégio isso, mas como é covarde uma briga entre tamanha desigualdade. É covardia total. Palavras contra bombas de gás. Músicas contra cassetetes. Ontem, a imprensa fez a diferença. Nao tivessem lá uma centena, no mínimo, de jornalistas de todo o mundo, até a Al Jazeera está aqui, o pau teria cantado bonito.

Pois se ontem se guardaram, hoje foram a desforra. O ato foi menor. Cerca de 200 pessoas. Nao vi a primeira parte da dispersao, cheguei logo depois, porque estava na concentracao da marcha e o transito aqui eu vou dizer uma coisa, é INFERNAL. Entao me atrasei na primeira parte.

Mas os perros estavam enfurecidos. Entevistei o comandante e ele disse que o decreto do Estado de Sítio - que segundo o presidente golpista havia sido derrubada, ainda nao foi publicado no Diario Oficial, chamado aqui de A Gazeta - segue vigente. Com esse decreto eles podem dispersar agrupamentos de 20 pessoas. E fizeram com gosto. Era incrível ver o comandante tendo que pedir para irem mais devagar e para nao atirarem toda hora.

E chuva de pedras por parte dos manifestantes. Mas até agora eu nao fiquei sabendo de nenhum policial ferido. Entao de fato tem efeito mais para acertar a imprensa e para provocar a polícia.

Seguimos pela rua hotel, correndo entre a polícia e os manifestantes.

Adrenalina a milhao. Juntei um cartucho de um onde sai o gás. Nos projetéis das bombas de gás, produzidas nos EUA, tem uma orientacao de nao jogar sobre as pessoas porque pode ferir e matar. Creio que eles leram bem essa parte de ferir e matar.

A imprensa de sempre segue preocupada com os chanceleres, políticos, diplomatas. Enquanto as pessoas seguem apanhando com tudo nas ruas.

Hoje, creio que isso pode mudar um pouco. Sobrou água com pimenta até para imprensa, jogada de uma especie de caveirao com ducha.

Ontem e hoje também fui a Rádio Globo, um dos meios fechados pelo governo golpista. Fui uma entrevista sensacional com o Davi Romero, diretor geral da rádio.

Depois de correr da polícia, escapar das pedras, falar com as pessoas, ver gente machucada, fumaca, respirar gás, levar água com pimenta, se fica muito cansado.

To me arrastando agora. Vou me arrastar até o fim do dia. Tenho menos de 24 horas em Tegucigalpa, terra de um povo que apanha nas ruas, que sabe sua constituicao quase de cor, em que a maioria repudia o golpe, exige a volta de seu presidente deposto e sabe porque quer uma constituinte. O melhor de tudo: nao retrocedem. Hoje completam-se 104 dias de Resistência.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A intensidade da resistência 101 dias depois

A manha deste 6 de outubro foi de muita atividade polìtica por parte da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado. Iniciaram por volta das 8h30 com distribuiçao de um jornal de quatro páginas, bem escrito e bem diagramado, em frente a Embaixada dos EUA, local onde ocorrem concentraçoes cotidianamente.

Com muitos cartazes, apitos, buzinas e chapeloes estilo Presidente Manuel Zelaya, apelidado de Mel, as pessoas vao se agrupando mais e mais. Pelas 9h haviam cerca de 60 pessoas. Às 10h, duzentas. Quando o relógio marcou 11h já haviam nao menos

que 300 pessoas. Cantando, buzinando, apitando. Somado ao barulho dos manifestantes se somaram muitas buzinas dos carros que passavam, apoiando as pessoas que estavam na concentraçao.

Juan Barahona, um dos mais destacados líderes da Frente Nacional, informou a todos que 12 pessoas ligadas à Frente de Resistência solicitaram asilo político a Guatemala devido a perseguiçao que sofrem por parte do exército. Nao disse, entretanto, quantos homens e mulheres, nem seus nomes e nao sabia ainda qual o motivo especifico do pedido.

As aglomeraçoes públicas tendem a aumentar em Tegucigalpa após a retirada do Estado de Sítio e do fim, já há alguns dias, do toque de recolher por parte do governo interino. Amanha de manha ocorrerá mais uma reuniao da Coordenaçao da Frente Nacional em que se atualizará a leitura da conjuntura do país e apontar os encaminhamentos da resistência.

Em Assembleia Geral, realizada no sábado 4 de outubro, o movimento que exige a volta de Manuel Zelaya ao poder e de uma Assembleia Nacional Constituinte marcou marchas e piquetes em diversos bairros da capital hondurenha que se encontrarao no centro da cidade.

Mas o mais impressionante sao as abuelitas da Resistencia. Senhoras de setenta, oitenta anos. Com megafones e tudo que pode ilustrar sua indignacao. Sao admiradas e respeitadas mais que todos. Elas sao do alto dos cabelos brancos e das gengivas desdentadas uma das marcas da capacidade de resistir e de intensificacao do povo hondurenho.






Casa Presidencial

Putz, quase me esqueci.

Aproveitei os amigos e fui com eles na Casa Presidencial.

Tirei fotos e escutei as conversas.

Ouvido atento.

A gente deste novo governo é faladora.

Parece que eles "salvaram" o país.

Hasta! Buenos!






Silêncio de alguns dias e a chegada a Tegu

Houve, como eu esperava, as primeiras confusoes por aqui. Tudo porque quando na sexta tentei embarcar para Tegucigalpa, capital de Honduras. Nao rolou. Somente no sábado 6 da manha. Beleza, acordei ultra cedo. E quando embarquei para Honduras absolutamente ninguém me disse que era preciso visto. Falei com professores universitários, a governanta da pensao, funcionária da empresa de ônibus que faz a viagem.

Entao embarquei bem feliz. Antes disso escrevi algumas coisas. A saudaçao ao IV Congresso de Estudantes da UFRGS. Fiz um rascunho, mandei. Nao gostei, mandei outro, com as primeiras perspectivas projetando Honduras. Para o blog igual, até sair aquele primeiro post. Ja estava em conversas com várias pessoas que estiveram aqui em Honduras.

Pois bem. Três horas e meia de viagem até a fronteira. Qual minha surpresa?

A funcionária da fronteira hondurenha me convidou a sair do ônibus, esperar o próximo de volta a San Salvador e me disse que eu tinha que ter o maldito visto.

Pensei que era o fim de tudo. Mas ela disse que era bem simples e custava solo 30 dólares. Solo porque nao é do bolso dela.

O foda nao foi isso. Era sabado. O Consulado hondurenho so abriria na segunda. Entao me toquei para lá segunda.

O fim de semana foi interessante, mas nao tive como publicar nada. Sem computador, mas com alguns amigos novos. Três espanholas e um espanhol. Todos muitos queridos e amáveis. Foi o que me salvou da solidao. Quem também ajudou muito foram Fidel e Vladimir, da Universidad Luterana Salvadoreña. (http://www.uls.edu.sv/)

Domingo caminhei até torrar o couro cabeludo, a nuca e os braços no sol. O centro de San Salvador é uma concentraçao humana, uma confuso generalizada de ambulantes, mas um lugar belíssimo.

O ônibus é muito barato. Custa US$ 0.20, ou R$ 0,38. Era de esperar. A frota é de nada-mais-nada-menos que da década de 50 e os novos da década de 60. Muitos com bandeiras do Brasil.

O povo salvadorenho é o que se pode chamar de hospitaleiro. Alegres, comunicativos, futeboleros y cerevezeros como me disseram. Lembra muitas coisas do melhor do Brasil. Lembra também o pior. Muita desigualdade e miséria. Um país com 7 milhoes de pessoas e mais 3 milhoes de estrangeiros nos EUA. A remessa de dinheiro é boa parte dos recursos que as famílias tem aqui. Além dos infinitos carros que vem dos EUA para cá enviado por familiares que migraram.

Conheci outros jovens salvadoreños a partir dos espanhóis. Saimos em um bar chamado Utopia, depois do fatídico dia da fronteira. Esse dia eu viajei 7 horas de ônibus ABSOLUTAMENTE de graça. Eu fiquei mesmo irritado e preocupado também.

Os níveis de insegurança em El Salvador sao muito altos. Ninguém conseguiu me precisar bem, mas há muitos homicidios por aqui. Há muita segurança privada, fortemente armada. Sim, gente com fuzil, espingarda, calibre 12.

A preocupaçao com a segurança pública está em primeiro lugar para os salvadorenhos. Isso li no jornal em pesquisa de um Ibope de lá.

E a surpresa veio na segunda. O cara que ia me levar para tirar o visto se atrasou uma hora. Fiquei mais ansioso ainda. Tinha que tirar o visto de manha e pegar o ônibus às 12h30 em outro lado da cidade.

Mas sorte me sorriu e eu corri para abraçar ela.

Encontrei dois brasileiros no Consulado. Na mesma que eu. Tentaram entrar, foram barrados e tiveram que voltar. Era o jornalista Fabio Pannunzio e o cinegrafista André Zorato da Band.

Conversamos e me disseram que estavam indo na mesma hora e perguntaram se eu nao queria ir com eles também.

Finalmente as coisas ficaram mais fáceis. A viagem foi ótima. Apesar das milhoes de imprudências cometidas pelos motoristas locais. Vimos um acidente brutal. Caminhao, quatro ou cinco carros, camionetes. Um inferno.

Desviamos e seguimos.

Chegando a Tegu uma obra conseguiu a proeza de explodir um cano de alta pressao. A água jorrou como petróleo nas bacias de exploraçao. Apesar do desperdício a imagem foi muito bonita.

Aqui em Honduras, o cenário nao é de guerra civil, como fez questao de me dizer o jóvem taxista Nelson que me cobou 80 lempiras, moeda local, equivale a 4 dólares (o câmbio na frooteira foi 18 lempiras por 1 dólar), para me levar do Hotel Clarión onde ficou os amigos da Band e onde estao os jornalistas brasileiros até o Hotel Granada IV onde estou escrevendo agora.

Conversei com muitas pessoas. Tirei fotos de várias pixaçoes. (Posso enviar, me escrevam para rodolfo11@gmail.com). E conversei muito com três pessoas que estao construindo a Frente Nacional de Resistência há, agora, mais de 100 dias. Ontem tomamos uma cerveja para comemorar a queda do Estado de Sítio. Foi um duro golpe o fechamento do canal 36 e da rádio Globo.

Conversei no hotel com Ed, um homem de Sao Pedro Sula, que disse que em Tegucigalpa tem muitos que apóiam Zelaya porque vivem às custas do governo.

Confrontei essa opiniao aos jovens da Resistência Hondurenha.

Alguns protestos muitos massivos, como o do 15 de setembro, onde se especula que tenham participado em torno de 200 mil pessoas só aqui em Tegu, e a organizaçao que se passa nos bairros nao se explicam somente pela gana do dinheiro público. Se fosse por isso era necessário que os apoiadores de Michelleti que, segundo todos que eu falei aqui até o momento, também se desbunda em corrupçao. Assim como seu aliado brasileiro que por aqui tem feito sucesso pela banda conservadora: José Sarney. Sim. O próprio. Muito citado aqui por favoráveis e contrários ao governo interino.

O Presidente do Senado e suas posiçoes nada populares fizeram um desfavor a este país. Assim como muitos pensam que o papel de Lula também. Bom, essa já é outra história.

Hoje, da fato, começa a minha viagem.

Hasta Luego!


Obs.: Nao tenho tempo agora para corrigir, qualquer problema de digitacao ajeito outra hora. :)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Primeiros passos em San Salvador

Meus primeiros passos sozinho em San Salvador foram de uma incógnita total. Sai caminhando sem rumo. A avenida Norte quando cruza a calle Washington é muito pacata. Caminhei mais quatro quadras e vi o movimento. Estava atento a cada detalhe. As casas, as pessoas, as placas. Há publicidade pintada nos cordoes (nao encontrei o acento til) da calçada. Também vi duas pinturas na calçada da FMLN - a Frente Farabundo Martí para a Liberación Nacional, partido do presidente recém eleito Mauricio Funes.

De repente, de dentro, de uma barbearia um senhor me chama para afeitar la barba. Excelente oportunidade. Entrei sem hesitar. Pagaria três dólares pela barba feita e por conversar com um genuíno salvadorenho. Fanático por futebol, me contou lances memoráveis. Como a vitória do Alianza, time local, de 2X1, sobre o Santos de Pelé. Foi em 1965, ele me disse que chegou no estádio às 8h sendo que a partida seria apenas às 16h. Mas conversamos sobre coisas que barbeiros falam pouco no Brasil. Disse que era estudante de jornalismo e ele me deu um mapa do espectro ideológico dos jornais daqui. El Diario de Hoy e La Prensa Grafica sao de direita. O Diario Co Latino de esquerda. Me deu exemplares da semana de cada um deles. Perguntei sobre Funes, a economia do país e confidenciei que estou a caminho de Honduras. Disse que a adoçao do dólar americano como moeda oficial serviu "para fortalecer a economia... dos milionários. Pagamos em dólares e recebemos em colóns (moeda local que foi trocada pelo dólar em 2001)". De Honduras, murmurou ironicamente "Gorilleti, Gorilleti". Essa é a forma como tratam o golpista Michelleti quando o considera golpista e truculento.

Ontem, aprovou-se uma CPI na Assembléia Legislativa Nacional para investigar se a FMLN se utilizou do aparato estatal para prestar apoio a Zelaya. Os deputados da base aliada disparam contra a oposiçao de direita "por criarem uma comissao de investigaçao de apoio a Michelleti". Nessa altura já estava conosco um empresário costa riquenho, radicado em El Salvador há quatro anos, chamado Ricardo Scott. Jovem e ousado trabalha no ramo dos jogos de azar e cassinos. Corre a América Central e alguns países da América do Sul para montar casas de jogos "legais e outras nem tanto assim". O barbeiro Julio, formado em Psicologia pela Universidade Nacional, nao me disse o sobrenome, mas me deu um cartao da barbearia com calendário de 2010. Já Ricardo me deu o telefone e o e-mail para que eu ligue quando retornar de Honduras que ele me mostrará a capital salvadorenha. Agradeci a atençao e segui o caminho. Comprei os jornais de hoje, menos o Co Latino que nao tinha na loja de conveniencias do Posto Shell, que cobra terríveis 3 dólares pelo litro da gasolina comum.

Teria muitas outras coisas a contar, mas relatos muito grande atrapalham a leitura e, no fim, dizem muito pouco.


Deixo aqui minhas pendências: escrever sobre o Aeroporto do Panamá. Sobre a Casa Clementina, onde estou hospedado. Sobre o panfleto que recebi na rua do prefeito de San Salvador Norman Quijano, da partido de direita Arena (sempre arena!), e suas 100 obras em 100 dias de governo.

Tenho escrito um diário à mao. Talvez nunca venha a público, mas quem tiver interesse é só falar.