domingo, 31 de outubro de 2010

A mais fria eleição desde 1989

O Brasil acabou de eleger a primeira mulher como Presidente da República. Alçada por Lula, Dilma Rousseff atingiu mais de 50 milhões de votos. O fato histórico ocorreu em uma eleição fria, distante, desapaixonada, dominada pelas máquinas eleitorais e pelos marqueteiros, em que as demandas populares foram pouco debatidas.

A agenda conservadora das eleições ficou por conta do tema do aborto, de qual candidato era mais ou menos cristão e pela consolidação da discriminação aos homossexuais. Tanto Dilma quanto Serra afirmaram que não irão propor alterações na legislação que equiparem os direitos civis de heteros e homossexuais.

Mas a pauta conservadora não ficou só nas questões morais e de valores dos candidatos. Esteve também no escasso debate político. Nos breves momentos em que a política esteve no centro da eleição, as propostas e soluções aos problemas nacionais respondiam mais aos interesses das elites do que do povo. Não me crucifiquem antes da hora. A polarização eleitoral estabelecida não se configurou em uma polarização de fato programática. Dilma e Serra estão comprometidos com a ortodoxia da política de juros do Banco Central. Estavam de acordo com a manutenção do superávit primário e da Desvinculação das Receitas da União – dois mecanismos perversos que saqueam os tributos pagos para pagamento dos juros da dívida pública, a saber, interna e externa.

O promessômetro atingiu níveis escandalosos, não factíveis, portanto, mentirosos. As milhares de creches, milhões de vagas no Ensino Técnico, os reajustes dos valores do salário mínimo e da aposentadoria, as casas populares, os investimentos em segurança pública e nas universidades não poderão ser atingidos com os parâmetros da economia sendo os mesmos.

Duas inversões surpreenderam. O tucano estatizante e o petismo medroso. Serra denunciou os leilões de poços de petróleo do Pré-sal comprados por petrolíferas estrangeiras como um ataque a soberania nacional. A crítica é correta, o estranho é o denunciante, um privatista de currículo cheio. O apelo contra o retrocesso, o medo da volta do neoliberalismo tucano, esteve no centro da campanha de Dilma. A comparação entre FHC e Lula embasou o discurso de pavor contra o tucanato.

Na política externa aparecem as principais divergências. Independente de quem ganhasse o Brasil seguiria como a maior potência econômica e política da América Latina. Existem importantes diferenças no comando da região. Lula optou pela diplomacia e cooperação econômica ao bloco bolivariano como forma de crescer seu prestígio na região e, consequentemente, aumentar sua participação na política mundial. A relação com os EUA é uma associação conflitiva. As boas relações de Lula com Bush e Obama, não se abalaram com os momentos de divergência em conflitos regionais como no caso de Honduras, pois o Brasil apesar de dialogar e negociar não se insere e não fortalece o pólo de Chávez, Morales, Correa e Lugo. Bem como a ação militar que o Brasil comanda no Haiti de consolidação do governo eleito fruto de um golpe de Estado, uma postura inversamente proporcional a realizada em Honduras. Assim sendo, a política externa brasileira é agente de pacificação no enfrentamento do bloco bolivariano com o imperalismo estadunidense na América Latina.

Serra manteria a relação estável com os EUA a custa de uma submissão acomodada. Optaria pelo enfrentamento ao bloco bolivariano, não como Uribe na Colômbia, mas seria um forte ator de enfraquecimento político e econômico do bloco liderado por Chávez. Seja pelo confronto de teses para o continente nos fóruns do Mercosul, da Unasul, da OEA e da ONU, seja pela diminuição das relações comerciais. Ambos seria o freio para efervescência política que vivem os países vizinhos.

Isso não é um denuncismo cego. PT e PSDB são partes fundamentais de um regime político que tenta impor o bipartidarismo no Brasil. São os partidos que buscam a alternância no poder para responder aos anseios dos setores sociais que representam. Os setores da elite que respondem se evidenciam pelos seus apoiadores. Serra é um representante mais autêntico e genuíno da burguesia brasileira. Preferido por setores da mídia hegemônica como a Globo, Veja, Folha de São Paulo e o Estadão. Lula, o operário que virou Presidente, é apoiado por Setúbal (Itaú-Unibanco), Eike Batista, Abílio Diniz e Paulo Skaf (FIESP), além dos ex-presidentes corruptos Sarney e Collor. Não é possível negar a história de construção do PT no seio dos movimentos sociais. Assim, os aliados históricos – movimentos sociais do campo e da cidade, sindicatos e estudantes – são atendidos desde que não se confronte com o projeto de conciliação dos interesses das classes sociais. Óbvio que aqui trato das classes sociais segundo Marx elaborou, e não das faixas econômicas em que determinados institutos de mercado distribuem as pessoas.


Somado a banalização da corrupção (os casos Erenice Guerra e Paulo Preto durante a eleição), esses elementos levaram a um esvaziamento da participação do povo na política. O domingo, 31 de outubro, em Porto Alegre pareceu dia de qualquer coisa, menos de eleição presidencial. A ausência do povo na participação efetiva dos rumos do Brasil nos trouxe a eleição mais fria desde a redemocratização. O poder econômico segue no comando através de sofisticadas campanhas conduzidas por experientes marqueteiros. Ah, já ia esquecendo. O PMDB, como desde sempre, estará no governo. Mais forte do que nunca.

domingo, 17 de outubro de 2010

Legião urbana vive sempre

por Israel Dutra (@israel_dutra)

Acaba de completar 14 anos da morte do líder da Legião Urbana, Renato Russo. Catorze longos anos. Milhares de fãs, admiradores e simpatizantes organizam via internet, redes sociais, e outras mídias homenagens que ajudam a rememorar a grande obra de Renato e da Legião. Sua atualidade é indiscutível.

É sempre bom discutir e rediscutir o seguinte: como explicar a abrangência das canções da Legião? Podemos afirmar que a banda é um dos maiores fenômenos da arte brasileira, no período da redemocratização. Se entendermos que a arte é uma expressão complexa e original da realidade é necessário buscar compreender Legião Urbana no contexto dos últimos vinte e cinco anos no Brasil.

O sucesso da Legião representa uma combinação de diversos fenômenos: a explosão juvenil, artística, social e política do começo dos anos 80; um novo romantismo, repleto de referências literárias, que se popularizou entre essa juventude; e por fim, uma descrição subjetiva da complexidade dos novos cenários gerados pela “aceleração dos tempos” resultante das inovações tecnológicas. A receita da Legião Urbana, a um só tempo simples e refinada, social e individual, ganhou os corações de milhões de jovens (e não tão jovens) brasileiros. De forma arrebatadora.

Retrato de um país em transformação

O projeto que veio a dar origem a Legião Urbana nasceu no final dos anos setenta. Uma Brasília ainda semi-militarizada, território fértil para que os filhos de funcionários públicos, com amplo acesso à cultura pudessem realizar suas diferentes experimentações. Contando seu breve carreiro solo (com o pseudônimo de “Trovador Solitário”) e a banda “Aborto Elétrico”, Renato Russo atuou de 1978 até 1984 como um catalisador desta insatisfação culta da classe média de Brasília. Território concentrado de contradições, por todos os lados, onde o poder existia nos adornos de Oscar Niemeyer, o Planalto Central foi o berço de um novo movimento de Rock Brasileiro (também conhecido como “BRock). Sintetizando influências internacionais, no embalo do movimento punk- como The Clash, Sex Pistols e outros- com a onda de forte crítica ao regime militar, começavam a surgir nomes como Plebe Rude, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso.

O ano de 1984 mudou, definitivamente, a cara do Brasil. As concentrações multitudinárias nos chamados Comícios das Diretas uniu o que se havia represado durantes vinte anos. Num mesmo movimento, os líderes das greves operárias de 78-80, os novos líderes estudantis, anistiados, membros da resistência armada e civil à ditadura, artistas de todo o tipo, intelectuais. Uma ampla parcela do povo saiu às ruas para repudiar os militares. Os todo-poderosos estavam na defensiva. Aberta a represa, o país chorava seus mortos, mas sorria para um novo tempo. A juventude dos anos oitenta tinha o futuro pela frente. E neste caminho, Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha inauguram em 1985, com o disco "Legião Urbana", uma nova etapa na música brasileira. Um disco com fortes contornos políticos, como também o era “Que Pais é este”, uma coletânea de canções inéditas (1978/1987).

O Brasil dos oitenta atravessava este despertar, operário, estudantil, cultural. Greves de funcionários públicos, marchas de desempregados, reorganização das entidades estudantis. Se por um lado eufórico, o país viu os generais saírem do poder, por outro, hesitante, acompanhou a transição conservadora, derrota da Emenda Dante e a crise e arrocho do governo Sarney.

Neste contexto, as letras foram as mais claras o possível. A conhecida e sempre atual “No senado, sujeira para todo lado”, ou “Desde pequenos nós comemos lixo/ comercial e industrial”. O engajamento político da Legião nunca foi perdido. No disco “V” se pode notar em “Metal contra nuvens” metáfora que expressava a estafa que começava a “Era Collor”. Em “Teatro dos Vampiros” escutamos a desilusão e a desesperança dos que tinham sido jovens nos anos oitenta. 

A derrubada de Collor por uma intensa mobilização juvenil- que entoou uma vez mais “Que país é este”- trouxe mais energia e alento. O disco “O descobrimento do Brasil”, de 1994 reflete esta situação, com a crítica esperançosa de “Perfeição”.

A crítica da Legião era universal, como se pode perceber em canções como “A Canção do Senhor da Guerra” e “Fábrica”.
Legião foi produto destas circunstâncias. Contudo, reduzir a enorme força de sua intervenção artística ao contexto é um reducionismo. A Legião foi muito mais que isso.

Um novo romantismo, autêntico e popular

Outra característica marcante da arte de Renato Russo foi a retomada dos temas românticos. O Brasil avançava,nos anos setenta e oitenta, em direção a um genérico “progresso”. A incorporação de grande conglomerados fabris, avanços no processamento de dados e consumo de novos eletrodomésticos pautavam a idéia de nosso “desenvolvimento”. Na contramão destes novos tempos, Renato Russo retoma as idéias românticas, numa crítica que lembra Walter Benjamim, teórico da crítica ao progresso e do “desencantamento do mundo” Tal analogia aparece mais de uma vez, como na canção “Índios”: Quem me dera, ao menos uma vez/Fazer com que o mundo saiba que seu nome/Está em tudo e mesmo assim/Ninguém lhe diz ao menos obrigado.”

A influência pré-capitalista sempre foi reconhecida por Renato. Seu pseudônimo deve em muito para Rousseau. Em “Geração Coca-Cola” há uma mistura surreal de elementos: ‘filhos da revolução’ como referencia ao golpe de 1964, ‘burgueses sem religião’ como retorno aos ideais rossunianos da revolução francesa, numa canção que de conjunto é uma crítica ao modo de consumo capitalista industrial.

Podemos ver referencias à literatura brasileira. A genial “Faroeste Caboclo” guarda estilo e similaridade com várias obras de Antonio Callado. A idéia de uma trama nacional, ao estilo de Brasília, suas contradições, mostra a sensibilidade popular de Renato.

O novo, porém, ao contrário de outras experiências na música popular brasileira que bebiam em fontes românticas, foi o caráter contemporâneo e popular das temáticas da Legião.

A busca para um sentido para o mundo, tendo como ênfase prioritária a juventude urbana dos anos oitenta, ainda vai se inspirar na melancolia de fontes exteriores a realidade brasileira descrita. A influência de distintas vertentes do rock inglês vai determinar as várias das fases da Legião. Renato Russo, exímio conhecedor do idioma inglês revista vários autores e poetas, com referências múltiplas. Por exemplo, em todas as suas entrevistas, Renato nunca escondeu que sua grande inspiração foram bandas como The Smiths e Joy Division.

Este novo lirismo vai combinar crítica social, representações de melancolia e angústia, bem como de construções utópicas, sejam elas do ponto de vista individual (“lembra e vê que o caminho é um só”) ou social (“nosso dia vai chegar/ teremos nossa vez”).
A popularização destas categorias, muitas vezes, refinadas é um fato inédito na música brasileira. Num momento de consagração do LP e mais tarde, do CD, Legião Urbana alcançaria a incrível marca de milhões de cópias vendidas nos seus álbuns, no final dos anos oitenta.

Temas complexos para tempos complexos

A originalidade das letras do conjunto também instituiu novos padrões para o rock: novas temáticas eram abordadas. Como já exposto, as mudanças na estrutura política e social no país abriram caminho para novos temas. Podemos afirmar que Legião Urbana expressou nas suas letras, por vezes contraditórias, uma apreensão dos tempos complexos.

As relações entre pais e filhos, preconceito, e crises pessoais refletiam as novas estruturas familiares que começavam a aparecer neste período. “Pais e Filhos” foi um marco, pela primeira vez, publicamente se tratava de um tema até então considerado privado.

A utilização de categorias da psicanálise é outro aspecto que podemos considerar como “revolucionário”. Em “Conexão Amazônica” podemos identificar, de forma embrionária, tal presença: “estou cansado de ouvir falar de Freud e Jung”, mostrando que tais pensadores eram presença constante nos círculos de debate do compositor. Em “Meninos e Meninas”, o imaginário da psicanálise, com complexos, culpas e traumas é tratado de forma aberta e poética.
 A discussão da sexualidade inscreve-se nesta seara. Ao assumir a homossexualidade, Renato Russo tomou uma postura engajada. Assim é que, seu primeiro álbum da carreira solo chama-se “The Stonewall Celebration Concert”, alusão a famosa mobilização do movimento gay norte-americano, no bar Stonewall em São Francisco.

Questões como envolvimento com drogas- sempre nebuloso para o mundo glamoroso do rock- foram tratadas com franqueza. Numa das mais belas canções, reverenciando a obra de Thomas Mann, “A Montanha Mágica” é uma expressão da forma honesta com que Renato Russo tratava seus problemas com drogas.

Mudaram as estações, nada mudou?!

A morte de Renato Russo, por conta de complicações ocasionadas pelo vírus HIV, não encerrou o legado da Legião. Sua vida e morte intensa mudaram a história da música e da arte contemporânea em nosso País. 


As contradições essenciais retratadas pelas canções de Renato Russo não foram superadas. Suas rimas apresentam uma atualidade necessária, esperançosa. Sua melancolia é uma expressão das relações contemporâneas, em tempos difíceis e sombrios. Seu legado é testemunho do passado recente, e da mesma forma, incentivo para a reconstrução do futuro. Retomando Walter Benjamim, às gerações futuras cabe re-encantar o projeto utópico do mundo. Com a benção singular de um grande poeta brasileiro, Renato Russo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Nenhum voto em Serra

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) mereceu a confiança de mais de um milhão de brasileiros que votaram nas eleições de 2010. Nossa aguerrida militância foi decisiva ao defender nossas propostas para o país e sobre ela assentou-se um vitorioso resultado.

Sentimos-nos honrados por termos tido Plínio de Arruda Sampaio e Hamilton Assis como candidatos à presidência da República e a vice, que de forma digna foram porta vozes de nosso projeto de transformações sociais para o Brasil. Comemoramos a eleição de três deputados federais (Ivan Valente/SP, Chico Alencar/RJ e Jean Wyllys/RJ), quatro deputados estaduais (Marcelo Freixo/RJ, Janira Rocha/RJ, Carlos Giannazi/SP e Edmilson Rodrigues/PA) e dois senadores (Randolfe Rodrigues/AP e Marinor Brito/PA). Lamentamos a não eleição de Heloísa Helena para o Senado em Alagoas e a não reeleição de nossa deputada federal Luciana Genro no Rio Grande do Sul, bem como do companheiro Raul Marcelo, atual deputado estadual do PSOL em São Paulo.

Em 2010 quis o povo novamente um segundo turno entre PSDB e PT. Nossa posição de independência não apoiando nenhuma das duas candidaturas está fundamentada no fato de que não há por parte destas nenhum compromisso com pontos programáticos defendidos pelo PSOL. Sendo assim, independentemente de quem seja o próximo governo, seremos oposição de esquerda e programática, defendendo a seguinte agenda: auditoria da dívida pública, mudança da política econômica, prioridade para saúde e educação, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, defesa do meio ambiente, contra a revisão do código florestal, defesa dos direitos humanos segundo os pressupostos do PNDH3, reforma agrária e urbana ecológica e ampla reforma política – fim do financiamento privado e em favor do financiamento público exclusivo, como forma de combater a corrupção na política.

No entanto, o PSOL se preocupa com a crescente pauta conservadora introduzida pela aliança PSDB-DEM, querendo reduzir o debate a temas religiosos e falsos moralismos, bloqueando assim os grandes temas de interesse do país. Por outro lado, esta pauta leva a candidatura de Dilma a assumir posição ainda mais conservadora, abrindo mão de pontos progressivos de seu programa de governo e reagindo dentro do campo de idéias conservadoras e não contra ele. Para o PSOL, a única forma de combatermos o retrocesso é nos mantermos firmes na defesa de bandeiras que elevem a consciência de nosso povo e o nível do debate político na sociedade brasileira.

As eleições de 2002, ao conferir vitória a Lula, traziam nas urnas um recado do povo em favor de mudanças profundas. Hoje é sabido que Lula não o honrou, não cumpriu suas promessas de campanha e governou para os banqueiros, em aliança com oligarquias reacionárias como Sarney, Collor e Renan Calheiros. Mas aquele sentimento popular por mudanças de 2002 era também o de rejeição às políticas neoliberais com suas conseqüentes privatizações, criminalização dos movimentos sociais – que continuou no governo Lula -, revogação de direitos trabalhistas e sociais.

Por isso, o PSOL reafirma seu compromisso com as reivindicações dos movimentos sociais e as necessidades do povo brasileiro. Somos um partido independente e faremos oposição programática a quem quer que vença. Neste segundo turno, mantemos firme a oposição frontal à candidatura Serra, declarando unitariamente “NENHUM VOTO EM SERRA”, por considerarmos que ele representa o retrocesso a uma ofensiva neoliberal, de direita e conservadora no País. Ao mesmo tempo, não aderimos à campanha Dilma, que se recusou sistematicamente ao longo do primeiro turno a assumir os compromissos com as bandeiras defendidas pela candidatura do PSOL e manteve compromissos com os banqueiros e as políticas neoliberais. Diante do voto e na atual conjuntura, duas posições são reconhecidas pela Executiva Nacional de nosso partido como opções legítimas existentes em nossa militância: voto crítico em Dilma e voto nulo/branco. O mais importante, portanto, é nos prepararmos para as lutas que virão no próximo período para defender os direitos dos trabalhadores e do povo oprimido do nosso País.

Executiva Nacional do PSOL – 15 de outubro de 2010.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A ideologia de Cazuza

Em 1988 o cantor e poeta Cazuza é entrevistado por Jô Soares. O início da entrevista fala sobre a sua ideologia. Imperdível. Vídeo indicado pelo Gabriel Zatt (@zattcomunista).

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dois discursos fundamentais

Reproduzo aqui no Rodomundo os discursos dos vereadores de Porto Alegre do PSOL Pedro Ruas e Fernanda Melchionna. Eles estão publicados no blog do Pedro Ruas - www.pedroruaspsol.wordpress.com.

Falam sobre a não eleição da Deputada Federal Luciana Genro e as lutas que se avizinham.


Discurso da Verª Fernanda Melchionna 

Crédito Hugo Scotte
Não poderia me furtar – em nome da Liderança do PSOL – de fazer um balanço desse período eleitoral e uma homenagem devida nesta tribuna. O primeiro balanço, necessário de ser feito, foi que a eleição de 2010 demonstrou que, neste País, a política-business – ou seja, na transformação da política em uma arte de marqueteiros, das grandes máquinas eleitorais, da tradução de imagens, muito mais do que o debate de conteúdo – ficou marcada no resultado dessas eleições, transformadas em um verdadeiro negócio com os grandes marqueteiros que ganham milhões e milhões de reais para ver o que o povo quer e fazer com que os políticos façam discurso e promessas, aliás, muitos “promessômetros” por aí, através daquilo que o povo precisa. Eu queria dizer que, neste País, no qual supostamente está tudo muito bem; neste País que assistimos nas propagandas cor-de-rosa e azul do cenário eleitoral, que parece não ter problemas na Saúde, na Educação, no acesso ao trabalho, no País das maravilhas; elege-se, com um milhão e 200 mil votos, um Tiririca, a expressão da palhaçada ou a expressão do ceticismo de um setor do povo com a política tradicional ou com as negociatas feitas nas Câmaras e no Congresso. Mesmo com essa expressão de ceticismo, de ver que, além de se elegerem pessoas que não têm nenhum compromisso com a classe trabalhadora, ainda com esse festival de votos, levam, junto, na cola, “mensaleiros” do nosso País. Eu queria falar aos companheiros e companheiras, sobretudo para a população que nos assiste, que o nosso Partido – que surgiu para ser uma alternativa – cresceu no processo eleitoral. Nós conseguimos, a partir da nossa força, do trabalho sério do Marcelo Freixo, do Chico Alencar, nos fortalecer nacionalmente como alternativa coerente, inclusive, da Bancada no Senado e na Câmara Federal. O meu orgulho de ver na expressão do Pedro Ruas uma alternativa coerente na campanha do Governo do Estado, mostrando propostas para os nossos trabalhadores, e na expressiva votação do nosso Presidente Estadual, Roberto Robaina, um alento para aqueles que denunciaram a corrupção e lutaram pelos direitos da classe trabalhadora. E queria agradecer, com muito orgulho, os 130 mil votos da nossa querida Luciana Genro. Os 130 mil votos marca daqueles e daquelas que não se renderam, e não se venderam, e que, para mim, é um exemplo de deputada que sempre esteve no campo de batalha, que foi coerente, quando o Governo era do Olívio Dutra, para apoiar a luta dos professores; que foi coerente na luta contra as privatizações do nosso Estado; que foi coerente, quando o Governo quis atacar a Reforma da Previdência, que ela aprendeu, naquele Partido, que era ruim, que atacava direitos, que ampliar tempo de contribuição era nefasto para a classe trabalhadora neste País. Em 2003 ela manteve a mesma posição, pois aprendeu a vida inteira. Ela que foi um exemplo na luta para que os banqueiros e os bancos paguem mais impostos neste País e se desonere a classe trabalhadora, a assalariada. Foi um exemplo na luta contra a corrupção em qualquer esfera, porque não adianta a “ética do Mampituba”, de que do Rio Grande do Sul para cima não se fala de corrupção, do Rio Grande do Sul para baixo se fala, ou ao contrário. Temos que ser coerentes nos passos, na trajetória e naquilo que se defende. Eu queria fazer a minha homenagem, o agradecimento aos 130 mil votos, e dizer da injustiça que é, e da falta que faz na Câmara Federal uma deputada como a nossa aguerrida Luciana Genro, que seguirá no campo de batalha pelo fim do fator previdenciário, pelo reajuste dos aposentados vinculados ao mínimo, no combate à corrupção, e na defesa do sistema tributário mais justo. Eu queria terminar citando Darcy Ribeiro que disse: “Das lutas que eu fiz, a maioria eu perdi, mas nunca, em nenhum minuto da minha vida, eu queria estar do lado daqueles que ganharam.”
Vereadora Fernanda Melchionna, dia 04 de outubro de 2010.

Discurso da Vereador Pedro Ruas


“…Eu quero me referir a Deputada Luciana Genro, nossa companheira, nossa Líder e que, por uma questão natural de eleições, perde o mandato que tinha. Mas há uma penalidade em cima disso, e é com essa penalidade que nós, Ver.ª Fernanda Melchionna, eu e V. Exa., e muitas pessoas, Ver.ª Juliana Brizola, não se conformam. A Deputada Luciana Genro, é verdade, não exercerá o mandato de Deputada Federal, porque não atingimos, em termos de PSOL o coeficiente necessário. É uma realidade. Mas a penalização da Deputada de não poder concorrer à Vereadora, à Prefeita e, se for reeleito próximo Governador, ficar oito anos sem concorrer é uma cassação inaceitável! Nós, do PSOL, vamo-nos mobilizar contra isso, vamos lutar contra isso, vamos fazer campanha, exigir modificações numa legislação que, em tese, é positiva, é boa, mas que não pode servir para o absurdo! Como nenhuma lei! Ela tem que coibir, proibir, impedir, de fato, o que ela pretende, mas ela não pode chegar ao absurdo! E nesse caso concreto da Deputada Luciana Genro, da militante, da cidadã Luciana Genro, chega-se a este absurdo no Rio Grande do Sul: uma cassação que já é de quatro anos, que pode chegar a oito, numa situação, para todos nós inaceitável! Então, essa é uma Comunicação que faço em nome da Liderança do PSOL. Mas tenho certeza, pelas manifestações que já recebemos de diversos Partidos, que não é uma posição somente do PSOL; é uma posição da cidadania gaúcha, que, concordando ou não, política e ideologicamente, com a Deputada Federal Luciana Genro, reconhece nela méritos suficientes, condições suficientes e direitos inequívocos de poder continuar fazendo política, votando e sendo votada, na mesma condição que todos nós temos. Por isso, essa posição do PSOL é firme, é de enfrentamento, mas é também de agradecimento, porque temos recebido solidariedade dos mais diversos setores e segmentos. Agradecemos e prometemos que a nossa parte nós faremos. Muito obrigado!”
Pedro Ruas, 06 de outubro de 2010.
Lívia Stumpf/CMPA



terça-feira, 5 de outubro de 2010

Re-volta

Depois de muitos dias distante devido às eleições retorno ao blog. Volto de novo. Já o abandonei tantas vezes nas andanças por aí. Sou mais dado ao mundo do que a escrever sobre ele. Já vi que que gosto mais de viver do que de escrever. 

Quero deixar alguma coisa registrada.

A primeira são os três anos do blog JornalismoB (jornalismob.wordpress.com || @jornalismoB) editado pelo amigo e jornalista Alexandre Haubrich. Exercício livre de crítica de mídia o blog nasceu nas salas de aula da UFRGS e já tomou a rede. Alçou o caminho do impresso, no qual tenho muito orgulho de colaborar quase sempre, e no twitter é sensação. Haubrich dá palestras e entrevistas sobre a vida de blogueiro, tuiteiro e jornalista acima da média. Deixo aqui meus parabéns, a indicação de leitura e desejo de longa vida ao JornalismoB.

A segunda coisa é a eleição em si. Lutamos muito. Fizemos muita campanha. Não tivemos medida da força da ideologia do consenso entre as classes, entre os interesses antagônicos. Vivemos num país de pleno desenvolvimento capitalista. Há um pacto fundido por Lula entre o capital financeiro, o agronegócio, os industriários, empreiteiros, a burocracia sindical, movimentos sociais e as principais entidades estudantis. O país vive uma onda de prosperidade midiática. A televisão trata de encantar o sofrido dia a dia. A vida segue difícil no Brasil real. Falta emprego para toda a gente, falta esgoto e água encanada em muito lugar, falta dignidade em todo o lado. No lado dos ricos a vida segue ótima. Dinheiro no bolso e calmaria no ânimo de luta dos de baixo. Os daqui de baixo tão felizes com a Copa, com a Olímpiada e com as maravilhas que vemos na televisão. E também não existe comparação. Os últimos oito anos, de fato, foram melhores que os oito que os antecederam. O povo comparou com o que conhecia e votou como o pragmatismo econômico manda. Plínio e o PSOL trataram de apontar o futuro, a necessidade de mudanças estruturantes. Digo o óbvio: não há desenvolvimento capitalista sem concentração de renda e crescimento da miséria. Não há capacidade de distribuição de renda completa na economia de mercado, não há possibilidade de consumo para todos, ou seja, seguirão pessoas com fome, com frio, sem casa, sem terra, analfabetas, jogadas à sorte e ao descaso. E isso nós não deixaremos de dizer que tem nome e responsável.

Nessa maré lulista o PSOL cresceu. Dois senadores (PA e AP), três deputados federais (2 no RJ e 1 em SP), quatro deputados estaduais (2 no RJ, 1 em SP e 1 no PA) e 15% dos votos para o governo do DF.

Duas derrotas, entretanto, marcam o cenário. Disputando o Senado, Heloísa Helena não resistiu "às máquinas eleitorais de moer gente" em Alagoas. A derrota dela foi operada pelo próprio Lula em aliança com Collor, Lessa, Vilela, Lira e Calheiros. Acredite quem quiser e puder. Despontou com mais de 50% das intenções de voto e terminou com metade dos votos de Calheiros, segundo colocado.

E aqui no RS o coeficiente eleitoral impediu Luciana Genro de conquistar o terceiro mandato de Deputada Federal, mesmo fazendo quase 130 mil votos e sendo a oitava mais votada. Faltaram 14 mil votos. Tem muitos motivos para isso, mas tenho uma convicção de que, no mínimo, uns 20 mil eleitores de Luciana em 2006 (quando fez 185 mil votos) migraram para outros candidatos por crerem que ela já estava eleita. 

Enfim, menos de 24 horas depois já apontamos um novo caminho. Precisamos que os eleitores e apoiadores de Luciana Genro e do PSOL nos ajudem a seguir em frente, a seguirmos crescendo. Precisamos que mais gente se filie ao PSOL, que fortaleça nossa legenda, para que na próxima eleição não fique o gosto amargo da derrota. Não é a primeira vez que perdemos. A esquerda sofreu derrotas mais duras e avançou. Quatro, seis, oito anos são pouco para os nossos desafios. Já limpamos as espadas da última luta, estamos de curativos nas feridas e prontos para as próximas batalhas. Não cansamos de lembrar: PSOL é partido de ano inteiro, não começou e nem termina na eleição. 

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Asesinan en Honduras al décimo periodista en lo que va de año

Recebi a informação da Organização Política Los Necios de Honduras e publico em espanhol mesmo. É para aqueles que ainda defendem a "democracia" instalada em Honduras por força do Exército e dos EUA naquele país. 


VTV / teleSUR
El periodista Israel Zelaya Díaz conocido como "Chacatay" fue encontrado muerto en la tarde de este martes en las inmediaciones de San Pedro Sula (noroeste) Honduras con tres heridas de bala. Este es el décimo asesinato cometido contra profesionales de la información en ese país centroamericano desde el golpe de Estado en 2009 al ex presidente Manuel Zelaya.

Autoridades policiales de Honduras presumen que Zelaya Díaz fue abandonado sin vida en una carretera por varios desconocidos que se transportaban en un taxi. Los funcionarios mantienen la hipótesis porque en el lugar "no se encontraron casquillos u otros indicios" de este hecho.
A la víctima le encontraron entre su ropa, la billetera y otras pertenecías incluido el carné del gremio al que pertenecía.

Recientemente, el comunicador social había participado en una asamblea, donde denunció que fue objeto de un atentado criminal, cuando unos sujetos desconocidos prendieron fuego a su casa. En esa oportunidad, Zelaya Díaz logró salvar su vida, gracias a los ladridos de un perro.

Hace unos años, Zelaya Díaz sufrió un atentando, cuando unos desconocidos balearon su vehículo en San Pedro Sula. También había sufrido un hecho similar cuando sujetos armados le quitaron la vida a uno de sus hijos en el barrio Medina, en esa ciudad.

Este es el décimo profesional de la comunicación que es asesinado en lo que va de año en Honduras. El pasado 18 de febrero, el periodista Nicolás Asfura, de 42 años, fue hallado muerto atado de pies y manos en la bañera de su vivienda. Seguidamente, el 1 de marzo, Joseph Hernández Ochoa, de 26 años, fue abaleado cuando iba en su vehículo.

El 11 de marzo es acribillado, David Meza, de 51 años de edad, quien se desempeñaba como corresponsal del Canal 10. Tres días después, el 14 de marzo, es asesinado el periodista Nahum Palacios Arteaga, de 34 años cuando también se desplazaba en su carro.

El junio de este año el director de Canal 19, Luis Arturo Mondragón, fue ultimado cuando estaba sentado con su hijo en la acera de su casa minutos después de salir de su programa, según los informes.

Los otros periodistas hondureños asesinados durante el año son: Georgino Orellana (el 20 de abril), Luis Chévez Hernández (11 de abril), Bayardo Mairena y Manuel Juárez (26 de marzo).

CIDH pide al Estado adoptar las medidas necesarias para juzgar a los responsables de los asesinatos.

La relatora especial para la Libertad de Expresión de la Comisión Interamericana de Derechos Humanos (CIDH), Catalina Botero, había señalado el pasado 24 de abril que la institución había denunciado los crímenes y exhortado al Estado a adoptar las medidas necesarias para investigar y juzgar a las personas que cometieron los asesinatos, "para que de una vez por todas la prensa pueda realizar su trabajo de manera libre y desinhibida" en la nación centroamericana.

El 16 de junio de este año, la Organización de Periodistas Iberoamericanos (OPI) sostuvo que denunciará ante el Tribunal Penal Internacional y otros organismos internacionales al cuestionado gobernante de Honduras, Porfirio Lobo por ignorar los múltiples asesinatos a periodistas que se han perpetrado en Honduras y que suman diez en lo que va de año.

El gremio había expresado que el actual Gobierno hondureño ha demostrado un total desprecio por los derechos humanos y la libertad de los ciudadanos, particularmente la de los profesionales del periodismo.

Adicionalmente a los crímenes cometidos en contra de los comunicadores sociales, también existen denuncias por el asesinato de más de 50 abogados, políticos, empresarios y gente del pueblo a manos de bandas armadas que, presuntamente trabajan para el Estado.

Según la OPI, esta cantidad de fallecidos son contabilizados a partir del golpe de Estado orquestado por el entonces presidente de facto Roberto Micheletti. 

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um fim de semana inesquecível

Peço licença aos leitores. Talvez eu escreva para mim mesmo.

Consegui uma folga de dois dias na campanha para uma volta ao passado e um encontro com o presente.

Estive com a mãe e com irmão mais novo em Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul. Em Monte Alverne, distrito de Santa Cruz, nasceu e morou a família do meu avô, pai da mãe, Valdir Mohr. Lá começou a minha história. Já que o vô do meu vô veio do norte da Alemanha em meados do século XIX e encontrou no berço da colônia alemã aqui no estado um cantinho para montar a casa, o potreiro, galinheiro, a horta.

Minha vó veio de Fortaleza visitar uma irmã que praticava a Medicina recém formada em Santa Cruz. E não voltou. Casou com o "baixinho" de 1,96m. Nasceram minha mãe e os tios, as tias.

A família lá tem muitas curiosidades e é muito grande. Sempre muitos filhos, netos, bisnetos. Não conheci meu vô, vítima de um enfarto fulminante no coração em 1982, no exato dia que a mãe completou 18 anos. A fatalidade serviu para marcar ainda mais o vínculo da mãe e meu com essa região e com os nossos parentes de lá. Os Môr, como falam com o sotaque alemão, interagiram com diversas famílias e a se ramificou. Em muitos descendentes já não há mais o nosso sobrenome. Tudo bem, coisas da vida, dos nomes, das escolhas. 

E por escolha, minha decisão é ser dessa turma aí que reencontrei agora, neste mágico final de semana, 10 anos depois. Estive lá no fim de março de 2000. Por qualquer dessas coisas do acaso e da saúde, visitamos meu bisavô Edo Mohr, com seus 82 anos recém feitos. Em 1° de abril ele morreu. Partiu dele e da bisa Trula os laços de incrível solidariedade que eu vi entre todas as famílias da nossa árvore.

Eu tinha 13 anos, estava na oitava série. Agora voltei com 23, concluindo o jornalismo, militante do PSOL; depois destes 10 anos intensos de adolescência e início da fase adulta. Eu devia ter 1,70 ou menos. Agora 1,85m. O espanto geral ficou por conta do mano.

Meu irmão, Samir, que não ia desde o natal de 1998 foi um mundo de descobertas. Não lembrava de ninguém, por óbvio. Só lembrava de uma nega maluca. Era uma mini criança e voltou um homem com 1,92m.

Pra resumir o fado a cada abraço, cada história, cada lembrança, cada cerveja, cada garfada e a cada gargalhada resgatamos um porto seguro das nossas vidas. Sempre que der mesmo, volto "para casa" recarregar as baterias.

domingo, 1 de agosto de 2010

Notícias e abandono temporário

Não sei se há ainda alguém por aqui. Mas nem que seja para mim mesmo é necessário dar uma satisfação do silêncio do blog. Ainda mais quando atualizar o blog é uma daquelas promessas de início de ano. 

Eu e o Israel Dutra (@israel_dutra) tínhamos proposto uma série de 6 textos que relacionassem Copa do Mundo, futebol, história, política e sociedade. Fizemos quatro, das décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980. Fiquei satisfeito com os textos, especialmente o dos anos 50 e dos 70. O dos 70 foi ainda publicado no Jornalismo B impresso (www.jornalismob.wordpress.com). Apresentei ainda os textos como trabalho final da disciplina de Jornalismo Esportivo. Conquistamos um A. O anúncio derradeiro é que não teremos os últimos dois textos.

A notícia que me chamou mais atenção neste domingo são as dimensões do CENSO 2010. É um fundamental raio X do Brasil deste princípio de século. Qualquer pessoa séria que queira entender as profundas transformações pelas quais passaram o nosso país tem no CENSO do IBGE um banco de dados profundo e detalhado. Um exército de 192 mil recenseadores mal remunerados tomarão as avenidas, ruas, rios, estradas, travessas, ruelas nos 5.565 munícipios brasileiros. Há um processo de digitalização das ruas de quase todos os municípios. 

A ausência aqui é devido a uma enorme presença nas ruas. A campanha eleitoral é uma das janelas que temos a cada dois anos para apresentar nossas propostas para todos pela televisão, rádio, mas principalmente nas ruas. Enquanto a legislação eleitoral que proporciona um estrangulamento e quase impossibilidade de visibilidade das candidaturas independentes como a do PSOL é nas ruas que temos um porto seguro. Sim, apesar do ceticismo, descrença nos políticos e na política, encontramos muitas pessoas que querem uma alternativa e que vêem no PSOL um pólo de resistência à tormenta da falta de alternativas políticas atualmente.

Registro que o blog está abandonado temporariamente pois não encontro forças para escrever diariamente tudo que gostaria em detalhes. Gasto toda minha energia nessa oportunidade rara e privilegiada que tenho de estar diariamente na equipe de campanha da Luciana Genro (@lucianagenro) e do Roberto Robaina (@robainapsol). São duas biografias inatacáveis. Donos de uma capacidade política incrível, de uma garra insuperável. Possuem um envolvente senso de humor, que alegram a longa jornada de manhã a noite. Tenho aprendido muito com eles, com a relação que estabelecemos com o povo e com a sabedoria popular. As pessoas e a complexidade de suas vidas, as variáveis que se cruzam, onde caminham, o que fazem, onde trabalham e moram, a incrível capacidade de sobrevivência me dão confiança de fazer coisas que tenho prazer: política e o jornalismo.

Tenho apurado o olhar a cada dia, tentando ver a história das pessoas, enxergar o que realmente importa. Nas ruas o Brasil real é diferente do Brasil das propagandas estatais. Falta muito para a vida melhorar. E não tem jeito: temos que tomar a política como o espaço privilegiado das mudanças. Na luta do povo está guardado o futuro, que ela desabroche o quanto antes.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Eu não quis ser político, necessitei fazer política"



A frase acima é do amigo e companheiro de PSOL que muito nos orgulha: Edilson Silva. Atualmente é Presidente do PSOL-PE, foi candidato a Governador em 2006, a Prefeito de Recife em 2008 e novamente disputa o governo pernambucano em 2010.

Apresento a entrevista para que os leitores do Rodomundo conheçam como é o PSOL em outros lugares do país, pela identificação com o conteúdo da entrevista e pela convivência escassa mas frutífera que tenho com Edilson por sermos da mesma tendência interna do PSOL, o Movimento Esquerda Socialista (MES).







JC ONLINE - Por que o sr. quis ser político?



EDILSON SILVA – Eu não quis ser político, eu tive necessidade de fazer política. Quando estudante secundarista, de 15 para 16 anos, precisei fazer política, fundando e presidindo grêmios, para defender os interesses dos estudantes mais pobres da escola pública, como era o meu caso. Para ter garantida à merenda escolar, por exemplo, tive que brigar contra interesses mesquinhos, tive que fazer política estudantil. Como trabalhador e sindicalista, tive que fazer política para defender os interesses de categorias e de classe. Fui sindicalista por mais de dez; tive que lutar junto com muitos outros para colocar direitos na Constituição de 1988 e depois para manter esses direitos lá, como fazemos até hoje. Para lutar contra o racismo que vitima a população negra, tive que fazer política no movimento negro. Em todas estas batalhas, do meu cotidiano de vida, sempre percebi a importância de articular a luta social, econômica, popular, ecológica, ideológica, com a disputa por espaços institucionais. Portanto, não sou um político por opção ou profissão, sou um militante e liderança de um partido político, de um projeto coletivo que busca ser a extensão, a materialização em organização política das demandas mais sentidas da maioria da população e estou candidato a serviço desta tarefa, esperando cumpri-la da forma mais digna possível.

O restante da entrevista feita pelo Jornal do Commércio Online está no Blog do Edilson e tu podes ler clicando aqui.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Caim, Saramago

"A sua primeira morada foi uma estreita caverna, em verdade mais cavidade que caverna, de tecto baixo, descoberta num afloramento rochoso ao norte do jardim do éden quando, desesperados, vagueavam à procura de um abrigo. Ali puderam, finalmente, defender-se da queimação brutal de um sol que em nada se parecia com aquela invariável benignidade de temperatura a que estavam habituados, constante de noite e de dia, e em qualquer época do ano. Abandonaram as grossas peles que os sufocavam de calor e mau cheiro, e regressaram à primeira nudez, mas, para proteger de agressões exteriores as partes delicadas do corpo, as que andam só mais ou menos resguardadas entre as pernas, inventaram, utilizando as peles mais finas e de pêlo mais curto, aquilo a que mais tarde virá a chamar-se saia, idêntica na forma tanto para as mulheres como para os homens. Nos primeiros dias, sem terem ao menos uma côdea para mastigar, passarem fome. O jardim do éden era ubérrimo em frutos, aliás não se encontrava lá outra coisa de proveito, até aqueles animais que, por natureza, deveriam alimentar-se de carne sangrenta, pois para carnívoros vieram ao mundo, haviam sido, por imposição divina, submetidos à mesma melancólica e insatisfatória dieta. O que não sabia era donde tinham vindo as peles que o senhor fizera aparecer com um simples estalar de dedos, com um prestidigitador. De animais eram, e grandes, mas vá lá saber-se quem os teria matado e esfolado, e onde. Casualmente, havia água por ali perto, porém não era mais que umr egato turvo, em nada parecido com o rio caudaloso que nascia no jardim do éden e depois se dividia em quatro braços, um que ia regar uma região onde se dizia que o ouro abundava e outro que rodeava a terra de cuche. Os dois restantes, por mais extraordinário que pareça aos leitores de hoje, foram logo baptizados com os nomes de tigre e eufrates."

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Argentina aprova casamento homossexual

Já inicio explicando que o título desta postagem está errado. Nenhum país aprova ou desaprova o casamento gay. Ele é uma realidade acima da lei. Ou melhor, a lei ficou para trás. Portanto, o fato é que o Senado argentino equiparou a lei à sociedade. Não sem dor, não sem luta. Uma vitória apertada de 33 votos a favor e 27 contra. Ainda tiveram 3 abstenções. 

Movimentos pelos direitos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais) e diversos partidos de esquerda permaneceram 15 horas em frente ao Senado, tempo que durou a sessão. A votação lembrou a da lei do divórcio na Argentina em 1987, segundo a Zero Hora, jornal gaúcho.

A Igreja Católica mais uma vez não escondeu que está na contramão da história. Alegou que o projeto era coisa do diabo, parte de uma guerra contra deus. Veja aqui

Deixo a carta de Pedro Almodóvar sobre o tema publicado no Página 12, jornal diário argentino.


Carta a los senadores de Salta


 Por Pedro Almodóvar *
Queridos amigos: El matrimonio homosexual no le hace mal a nadie, no le roba nada a nadie, sin embargo hace feliz a mucha gente y les proporciona la posibilidad de vivir de un modo honesto, pleno y coherente junto a la persona que aman. Es un derecho esencial en toda sociedad civilizada, de lo contrario se está marginando a muchas personas en virtud de su sexualidad.
Hablar de igualdad en este sentido no es un capricho de degenerados, la Declaración Universal de los Derechos Humanos afirma que todos somos iguales, con independencia de nuestro sexo, religión, condición social, idioma, raza, etc.
No hay que permitir que ideas sectarias, retrógradas, inmovilistas, sexistas e injustas impidan a una sociedad libre progresar.
Es mentira y ridículo clamar que el matrimonio homosexual supone un peligro para la familia. Al contrario, las familias homosexuales aseguran el futuro de la idea de familia y la enriquecen. No se puede imponer la familia biológica como único modelo familiar, o se está yendo contra la realidad. Si algo caracteriza a la familia contemporánea es su enorme variedad. He conocido familias con solo una madre, un solo padre, dos madres, dos padres, familias multiétnicas, familias en las que ningún progenitor es biológico. Familias cuyos miembros pertenecen a distintas lenguas y culturas, familias que en millones de casos no son católicas. Se quiera o no, esas familias existen y adoran a sus hijos, y los cuidan y los educan, tanto como cualquier familia biológica, porque están basadas en el amor y en la solidaridad humanas.
No estoy en condición de pedir nada a los señores del Senado argentino. Para aprobar la ley que permita los matrimonios homosexuales no apelo ni siquiera a su sentido de la justicia, sólo les pido que hagan caso de su sentido común. Es lo único que necesitan para votar afirmativamente.


quarta-feira, 7 de julho de 2010

A primeira mão de Deus


Quando ocorreram os últimos Jogos Olímpicos na Grécia Antiga os deuses tomaram a sensata decisão de não se dedicarem mais as competições esportivas. A bagunça era muito grande. Quem tinha mais poder de manipular resultados, quem podia elevar seus protegidos à idolatria popular e tantas outras querelas relacionadas fizeram Zeus decretar que os deuses podiam fazer guerras, destruir lavouras e provocar as mais diversas pragas na Terra, menos intervirem nas disputas esportivas. Assim se sucedeu por longos séculos.  

As Copas de 58 e 70 já haviam visto seu Rei em campo. Mas de acordo com a resolução do maior dos deuses a genialidade humana se tornou o centro das atenções. Dribles, ginga, malemolência, ritmo, precisão e categoria se tornaram itens recorrentes nos gramados de Copas do Mundo. Uns times com mais isso ou aquilo, outro com menos. Os que tinham menos inventaram o futebol força, muito admirado aqui por estas bandas meridionais. 

Sócrates não era Deus. Sequer filósofo. Mas, seu futebol era uma apologia à beleza. O “calcanhar de Sócrates” era o ponto fundamental de apoio do melhor time que o Brasil já teve. Ao menos na teoria. Que timaço. Comandado por Telê Santana. Num mesmo time estavam Falcão, Sócrates, Zico, Eder, Cerezo, entre outros. O Brasil triturou seus adversários na primeira fase. Dduas goleadas contra a Escócia e Nova Zelândia e uma vitória contra a duríssima URSS. Superou a Argentina, jogando um bolão. Mas, o timaço de Telê caiu no estádio Sarriá, com os famosos três gols do jogador italiano com nome de ator de cinema: Paolo Rossi.

A Itália de Rossi foi a campeã vencendo a Polônia nas semi, e a Alemanha na grande final. Que copa. Os deuses, novamente não se meteram. 


Doutor Sócrates

Tudo isso até  a Inglaterra declarar guerra à Argentina pela posse das Ilhas Malvinas. A agressão brutal sob a batuta do conservadorismo neoliberal de Margaret Tatcher. Entretanto, a soberania sobre o controle das Malvinas era mais do que geopolítica e seus desdobramentos. Era o orgulho nacional em campo. 

A Junta Militar que governava a Argentina, comandada por Jorge Rafael Videla, tentou se valer da defesa da disputa das Malvinas como forma de diminuir a tensão interna devido à repressão ostensiva, as torturas, perseguições, assassinatos, inflação, empobrecimento da população que gerava forte descontentamento dos militares. A Junta Militar conduziu o país ao desastre.

A Argentina foi derrotada. Precipitou-se o sentimento anti-imperialista. Precipitou-se o sentimento anti-ditadura. Os militares caíram. Ainda faltava reestabelecer o orgulho nacional. Nisso um mortal se metamorfoseou em Deus. Em Diós. Em D10S. Diego Armando Maradona tornou-se um mito no futebol. Sua perna esquerda fez mais pelo futebol que centenas de milhares de jogadores em todo a história. Está no G2 do futebol, ao lado de Pelé.
 La mano de Diós

Porém em 1986 no México ganhar a Copa era pouco. E o destino fez justiça pelos seus pés. Um gol inesquecível, driblando o time inglês quase inteiro não era suficiente. A vingança foi degustada friamente. A Mão de Deus rompeu a sina escrita por Zeus muitos séculos antes. Fundou-se a Igreja Maradoniana.  

Go home, English Team. Maradona foi ao paraíso. 

É verdade que depois foi ao inferno, com as drogas, com as brigas, com a inveja de outros dirigentes do futebol argentino. Alguns pensaram que ele terminaria por lá. Mas, Diego, voltou. Ele ainda é Deus, ao menos em território Argentino. E um Deus bem subversivo. Tem Che tatuado no braço e é amigo de Fidel Castro. Esteve no trem da Alba, junto com Chávez e Evo Morales. Está sempre com os pobres de seu país. 

E deus voltou a jogar em copas? Teve Maradona outros seguidores?

A escassez de discípulos esperou 24 anos. Na verdade ele nasceu em 1987. É filho dos anos 80. Agora será canonizado. Sim, falamos de Luis Suarez do Uruguai. Sua defesa sensacional contra Gana levou seu país a uma semifinal de Copa 40 anos depois. A segunda mão de Deus demorou menos que a primeira.

De alguma ou outra forma, estamos sempre retornando aos anos oitenta. Mania retrô. Até no futebol. 
Suarez em defesa espetacular contra Gana Foto: Reuters