terça-feira, 13 de abril de 2010

Rio de Janeiro II - A tragédia

A imensa quantidade de chuva que se derramou sobre o Rio de Janeiro nesta última semana abalou o Brasil, mas fundamental e obviamente atingiu em cheio o estado fluminense.

O estado de calamidade pública a que chegou o Rio de Janeiro não se explica por um dia de tragédia natural atípica e que talvez demore mais uma década para se repetir.

A tragédia do Rio tem claros contornos da sociedade de classes.

Há uma enorme diferença entre os mortos do hotel de luxo de Angra no Ano Novo com os centenas de mortos, soterrados e desabrigados deste momento, em especial na cidade de Niterói.

Os morros escorreram e milhares de casas vieram abaixo.

O Rio vive em alguns lugares momentos de Haiti. Sim, o Haiti é aqui.

As campanhas assistenciais de ONGs, artistas, meios de comunicação, associação de moradores, escoteiros e o escambal são muito importantes. Porém, remediam pouco o acontecimento.

As causas fundamentais da tragédia seguirão até as próximas chuvas.

A enorme expulsão dos pobres dos centros urbanos os leva a conformar os enormes bolsões de miséria que contornam nossas metrópoles. Como a geografia do Rio de Janeiro obriga, esses cinturões de probeza sobem os morres. Amontoam-se como podem. Sem água tratada, saneamento básico, desempregados.

Os mesmos que morreram na tragédia perderam há pouco tempo parentes vítimas da dengue. São pessoas submetidas a condições desumanas de vida. Vivem em cima de lixões, literalmente.

Não há políticas sérias de combate à miséria no Brasil. Nem Lula, nem FHC, nem Sérgio Cabral, nem Garotinho. Nem a velha e a nova direita, que arrotam superávit primário e altas taxas de juros, exterminaram a chaga da miséria.

Dados para lá, dados para cá. Os números oficiais são uma verdadeira loteria a serviço da fantasia noticiosa.

O que há de concreto é a política de extermínio da pobreza.

Quando não chove no Rio, o Caveirão sobe o morro.

Quando estive pela primeira vez no Rio em janeiro de 2007 não acreditava na multidão de moradores de rua que via espalhados pelas calçadas. Pois os relatos de junho de 2007 de turistas e amigos que estiveram nos Jogos Panamericanos trataram de que era mínimo o número de moradores de rua na Zona Sul e arredores do Centro, na região das competições.

Aqui a Polícia Militar trabalha com fuzil. E tanques de guerra matam qualquer um quando atacam nos morros.

Registro o corajoso trabalho do Deputado Estadual do PSOL no Rio de Janeiro Marcelo Freixo. Presidiu a CPI das Milícias, desmascarou muito PM que estava mancomunado com o narcotráfico e segue a batalha contra a criminalização dos pobres.

É uma das poucas vozes dissonantes na política caricata, digo carioca. Sim, porque a gestão Cabral-Lula não ofereceu alternativas de verdade. Nem o verde-liberal Gabeira junto com o Serra oferecerão alternativa.

O povo do Rio precisa exigir e pressionar as autoridades para uma saída consistente. No avião vindo para cá no sábado, 11 de abril, ouvi do passageiro ao lado que o Sérgio Cabral havia cumprido uma promessa de campanha. Levado água e esgoto para todas as casas. Fica o trocadilho irônico para o governador que chora por petróleo e não trabalha pelas pessoas.

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