domingo, 27 de junho de 2010

Panteras e agitação dentro e fora dos campos

por Israel Dutra e Rodolfo Mohr



Definir os anos 60 é uma tarefa perigosa. Para mantermos a cautela, o melhor é chamá-los de "intensos", apenas intensos. Isso não diz nada. Isso diz tudo.
No futebol, os anos sessenta foram os primeiros que foram dominados pela língua portuguesa.
O maior jogador, em Copas do Mundo, naquela década, era negro, um gigante com a bola, falava português. Uma técnica invejável, localização tática astuta e uma disposição física imbatível. Eis a receita do seu sucesso. De qual jogador estamos falando? Para quem respondeu Pelé, vale a pena recapitular a história dos anos 60. Pelé não brilhou em nenhuma das duas Copas da década (Chile, 1962 e Inglaterra, 1966). Falamos de Eusébio, a pantera negra. Aliás, a falta de brilho de Pelé comprometeu a copa de 66, mas, não fez diferença em 1962. Os personagens da copa do Chile são outros: Amarildo e o Garrincha, conhecido como alegria do povo por seus dribles.
Manuel “Mané” Garrincha foi o mais brasileiro de todos os grandes craques de Copas do Mundo. Imortalizado nas palavras de grandes nomes da literatura como o poeta Carlos Drummond de Andrade e o escritor Ruy Castro, “Mané” também foi conhecido como “anjo de pernas tortas” , “Alegria do Povo”, entre outras alcunhas marcantes. 1962 foi seu ano. Apenas um cachorro conseguiu superá-lo, numa das cenas mais hilárias daquela Copa, quando “Mané” tentou retirar o animal de dentro do campo, na partida contra a Inglaterra. Garrincha liquidou os ingleses e os chilenos com gols antológicos. Deu vários passes para Vavá, outro monstro sagrado daquele campeonato. E foi Amarildo que entrou no lugar de Pelé, reinando soberano na aprazível Viña Del Mar: fez os dois gols na vitória dramática de 2X1 contra a Espanha, considerado o jogo mais difícil. Sem Pelé, mas com Garrincha, Vavá e Amarildo o Brasil seria a primeira equipe de fora da Europa, a conquistar duas taças mundiais consecutivas, ao derrotar o grande time da Tchecoslováquia, por 3X1, na grande final.
E Eusébio, nosso personagem?
Escolhido por vários jornalistas como o terceiro maior jogador da história das Copas, atrás de Pelé e Maradona, Eusébio Ferreira nasceu em Moçambique, jogou em Portugal e encantou o mundo. Marcou quase mil gols. E foi durante a Copa de 1966, que o mundo se curvou a uma majestade africana. Eusébio fez nove gols, consagrando-se artilheiro da Copa. Portugal, literalmente, massacrou seus adversários com goleadas como a de 5X3 na Coréia do Norte. O Brasil não escapou ao time lusitano, derrotado por 3X1. O time da Pantera só parou diante da Inglaterra de Bobby Charlton, lendário jogador. Numa das mais emocionante partidas de Copa do Mundo, os donos da casa eliminaram Eusébio e seus pares. 2x1. Dois de Charlton, com gol de honra para Eusébio. No final, os britânicos ganharam a copa, com Portugal em terceiro lugar. Triunfou o futebol “monárquico”.
Os portugueses começavam a se habituar com o protagonismo de africanos. O ídolo negro Eusébio era o rosto de milhões de africanos que sofriam a opressão de Portugal, militarista sob a batuta do ditador Salazar. A luta pela independência das colônias, somado às novas gerações de oficiais progressistas abriam espaço para novas ideias e ações no território lusitano. Começava a ruir um dos últimos impérios coloniais do século XX. As mobilizações estudantis, a luta de camponeses e trabalhadores, a esquerda clandestina e atuante, estes elementos somaram-se numa amálgama que irromperia na década seguinte: a Revolução de 1974 levaria vida nova ao país. Cravos vermelhos como as camisetas do Benfica ganharam às ruas de Lisboa. Sai de cena o Salarazismo.
Fora da Península Ibérica, voltando no tempo: outros “panteras” marcaram os anos sessenta. A agitação dos gramados não se compara a das ruas nos anos sessenta. Um grande processo revolucionário mundial. A juventude resolveu virou o centro das atenções, especialmente ao apagar das luzes do Mundial da Inglaterra '66.
Maio de 68 na França, Itália, Alemanha, México, Argentina e tantos outros. No Brasil, após o Golpe de 1964 - capítulo mais nefasto da história do país – outro Edson se tornou conhecido em todo país.
Estudante paraense de 18 anos, Edson Luís de Lima Souto levou um tiro no peito, no restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro. O povo brasileiro finalmente era atingido no coração pela brutalidade dos militares. Assassinatos e perseguição política movem 100 mil na capital carioca poe democracia. O golpe dentro do golpe assola o país.
Na próxima edição entraremos na era dos noventa milhões em ação.Brasil: ame ou deixe-o. Vem aí a maior seleção de todos tempos, Brasil-70. Viveremos também a década em que o futebol será o maior instrumento de estabilização política. Brasil, Alemanha e Argentina ergueram a taça e aplainaram os ânimos.


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