sexta-feira, 2 de julho de 2010

A “Fera” que desafiou os militares


Saldanha não bateu continência para Médici



A década de 70 no Brasil tem duas datas marcantes. Uma é 21 de junho de 1970. A outra 13 de dezembro de 1968.

Sim, no fim do ano em que a rebelião da juventude foi a regra, os militares decretaram o AI-5. Iniciava o período mais sangrento e repressor da ditadura brasileira. Foram proibidas quaisquer reuniões, as prisões ocorriam sem justificativa aparente, o direito de defesa e a possibilidade de habeas corpus foram sacadas da população.

Os militares implementaram com todas as forças o Terror de Estado. O nível de hostilidade e medo que o país vivia foi contrabalançado pela forte máquina de propaganda do regime. E nisso chegamos ao 21 de junho de 1970. O Brasil conquistava pela terceira vez a Copa do Mundo, obtendo definitivamente a taça Jules Rimet, um feito único.

A conquista foi construída com a maior preparação que uma seleção de futebol havia recebido até então e com ufanismo exaltado. “Noventa milhões em ação/Pra Frente, Brasil/Salve a Seleção”. Era necessário que o medo fosse substituído pelo amor à pátria, que a tortura ficasse nos porões e as bandeiras nas janelas. “De repente é aquela corrente pra frente/Parece que todo o Brasil deu a mão/Todos ligados na mesma emoção/Juntos num só coração”. Será? Nossos corações não batiam no mesmo compasso. A União Nacional dos Estudantes amordaçada na clandestinidade, os partidos de esquerda e democráticos todos na ilegalidade, opositores do regime no exílio, censura na imprensa e nas artes. Chico Buarque sintetiza nesta música composta com seu parceiro Francis Hime. “Aqui na terra tão jogando futebol/Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll/Uns dias chove, noutros dias bate sol/Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui tá preta”.

Vários brasileiros, desafiaram, pública e anonimamente a ditadura. Nos cárceres, nas fábricas, nas universidades, milhares foram calados, presos, mortos. Desafiar os militares era, antes de tudo, um ato de coragem que colocaria em risco a própria vida.

Duas figuras ilustres, porém, desafiaram a Ditadura, para além do campo meramente político. O Chico Buarque aí de cima, sob o pseudônimo de Julinho de Adelaide, cantou para o General Geisel: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”. Contam que a moça não tinha todos os elepês e compactos de Chico. Outro ilustre que não aceitou desaforo foi o grande comandante do tricampeonato, João Saldanha.

Nunca um treinador foi tão importante, para alinhar um time com tantas estrelas. Saldanha, gaúcho, comunista, amigo dos amigos – da brilhante turma de Milton Temer, Mário Lago, Niemeyer, entre outros – era um gênio da bola. Tão genial que contestou o generalíssimo Médici, quando este queria impor Dario. Como ele não podia escalar os ministros, Médici não ia escalar sua seleção. Sua resposta, ousada e contundente, lhe custou o cargo de treinador de suas “feras”. Começa aí a dinastia Zagallo/Parreira, dois homens de confiança da família Teixeira/Havelange. O Camarada Saldanha não se dobrou. O time estava tão bem montado que o resto era o resto.

E a Seleção voou em campo como nunca. Era muita genialidade num time só. Era Pelé, era Jarzinho, era Gérson, era Félix, era Clodoaldo, era Rivelino, era Tostão, era Carlos Alberto Torres, era Everaldo. Os mexicanos não acreditavam no que viam. O Brasil empilhava gols: só na primeira fase foram oito – quatro contra a Tchecoslováquia, um contra a Inglaterra e três na Romênia. Segunda fase: mais gols e gols. Quatro contra Peru. Na semifinal, 3X1 contra o Uruguai do lendário goleiro Mazurkiewicz. Só faltou o gol de Pelé, depois do drible de corpo sensacional, colocou a bola fora.

E a final, contra Itália, não poderia ser diferente. Quatro. Mais quatro. Brasil quatro a um. Golaços de Pelé, Jairzinho, Gérson e Carlos Alberto.

A ditadura se utilizou do feito, sem dar os devidos méritos obviamente a seu ideólogo. Coisas da vida e do autoritarismo.


O Furacão da Copa fez gol em todos os jogos

1978 foi a versão em tango da tragédia brasileira. Um título mundial para calar um país em que a ditadura militar matou mais e com requintes de crueldade superiores. A Copa na Argentina foi mais uma tabela de Havelange com os ditadores. Contudo, ao contrário do Brasil de 1970, a conquista por parte da Argentina, teve efeito contraditório. As grandes concentrações populares nos festejos do título não tiveram um caráter de apoio à junta militar que governava o país. O povo se unia para comemorar e começava a ver uma saída contra o regime. Na cabeça dos milhares que saiam pelas ruas pela primeira vez em muitos anos estava a frase: “Kempes sí, milicos no”. Coisas de Copa.

Não se poderia concluir a recordação dos anos setenta sem falar da seleção que mais inovou. A Holanda de 1974/78 construiu um novo tipo de futebol, com suas táticas criativas e sincronizadas. O “Carrossel Holandês” trouxe ao mundo uma nova forma de ver e jogar futebol. Seria Rinus Mitchell, o comandante da Laranja Mecânica, um segundo Charles Miller? Coisas dos anos setenta.

Kempes parou o Carrossel em 1978

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