quarta-feira, 7 de julho de 2010

A primeira mão de Deus


Quando ocorreram os últimos Jogos Olímpicos na Grécia Antiga os deuses tomaram a sensata decisão de não se dedicarem mais as competições esportivas. A bagunça era muito grande. Quem tinha mais poder de manipular resultados, quem podia elevar seus protegidos à idolatria popular e tantas outras querelas relacionadas fizeram Zeus decretar que os deuses podiam fazer guerras, destruir lavouras e provocar as mais diversas pragas na Terra, menos intervirem nas disputas esportivas. Assim se sucedeu por longos séculos.  

As Copas de 58 e 70 já haviam visto seu Rei em campo. Mas de acordo com a resolução do maior dos deuses a genialidade humana se tornou o centro das atenções. Dribles, ginga, malemolência, ritmo, precisão e categoria se tornaram itens recorrentes nos gramados de Copas do Mundo. Uns times com mais isso ou aquilo, outro com menos. Os que tinham menos inventaram o futebol força, muito admirado aqui por estas bandas meridionais. 

Sócrates não era Deus. Sequer filósofo. Mas, seu futebol era uma apologia à beleza. O “calcanhar de Sócrates” era o ponto fundamental de apoio do melhor time que o Brasil já teve. Ao menos na teoria. Que timaço. Comandado por Telê Santana. Num mesmo time estavam Falcão, Sócrates, Zico, Eder, Cerezo, entre outros. O Brasil triturou seus adversários na primeira fase. Dduas goleadas contra a Escócia e Nova Zelândia e uma vitória contra a duríssima URSS. Superou a Argentina, jogando um bolão. Mas, o timaço de Telê caiu no estádio Sarriá, com os famosos três gols do jogador italiano com nome de ator de cinema: Paolo Rossi.

A Itália de Rossi foi a campeã vencendo a Polônia nas semi, e a Alemanha na grande final. Que copa. Os deuses, novamente não se meteram. 


Doutor Sócrates

Tudo isso até  a Inglaterra declarar guerra à Argentina pela posse das Ilhas Malvinas. A agressão brutal sob a batuta do conservadorismo neoliberal de Margaret Tatcher. Entretanto, a soberania sobre o controle das Malvinas era mais do que geopolítica e seus desdobramentos. Era o orgulho nacional em campo. 

A Junta Militar que governava a Argentina, comandada por Jorge Rafael Videla, tentou se valer da defesa da disputa das Malvinas como forma de diminuir a tensão interna devido à repressão ostensiva, as torturas, perseguições, assassinatos, inflação, empobrecimento da população que gerava forte descontentamento dos militares. A Junta Militar conduziu o país ao desastre.

A Argentina foi derrotada. Precipitou-se o sentimento anti-imperialista. Precipitou-se o sentimento anti-ditadura. Os militares caíram. Ainda faltava reestabelecer o orgulho nacional. Nisso um mortal se metamorfoseou em Deus. Em Diós. Em D10S. Diego Armando Maradona tornou-se um mito no futebol. Sua perna esquerda fez mais pelo futebol que centenas de milhares de jogadores em todo a história. Está no G2 do futebol, ao lado de Pelé.
 La mano de Diós

Porém em 1986 no México ganhar a Copa era pouco. E o destino fez justiça pelos seus pés. Um gol inesquecível, driblando o time inglês quase inteiro não era suficiente. A vingança foi degustada friamente. A Mão de Deus rompeu a sina escrita por Zeus muitos séculos antes. Fundou-se a Igreja Maradoniana.  

Go home, English Team. Maradona foi ao paraíso. 

É verdade que depois foi ao inferno, com as drogas, com as brigas, com a inveja de outros dirigentes do futebol argentino. Alguns pensaram que ele terminaria por lá. Mas, Diego, voltou. Ele ainda é Deus, ao menos em território Argentino. E um Deus bem subversivo. Tem Che tatuado no braço e é amigo de Fidel Castro. Esteve no trem da Alba, junto com Chávez e Evo Morales. Está sempre com os pobres de seu país. 

E deus voltou a jogar em copas? Teve Maradona outros seguidores?

A escassez de discípulos esperou 24 anos. Na verdade ele nasceu em 1987. É filho dos anos 80. Agora será canonizado. Sim, falamos de Luis Suarez do Uruguai. Sua defesa sensacional contra Gana levou seu país a uma semifinal de Copa 40 anos depois. A segunda mão de Deus demorou menos que a primeira.

De alguma ou outra forma, estamos sempre retornando aos anos oitenta. Mania retrô. Até no futebol. 
Suarez em defesa espetacular contra Gana Foto: Reuters
 

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