domingo, 17 de outubro de 2010

Legião urbana vive sempre

por Israel Dutra (@israel_dutra)

Acaba de completar 14 anos da morte do líder da Legião Urbana, Renato Russo. Catorze longos anos. Milhares de fãs, admiradores e simpatizantes organizam via internet, redes sociais, e outras mídias homenagens que ajudam a rememorar a grande obra de Renato e da Legião. Sua atualidade é indiscutível.

É sempre bom discutir e rediscutir o seguinte: como explicar a abrangência das canções da Legião? Podemos afirmar que a banda é um dos maiores fenômenos da arte brasileira, no período da redemocratização. Se entendermos que a arte é uma expressão complexa e original da realidade é necessário buscar compreender Legião Urbana no contexto dos últimos vinte e cinco anos no Brasil.

O sucesso da Legião representa uma combinação de diversos fenômenos: a explosão juvenil, artística, social e política do começo dos anos 80; um novo romantismo, repleto de referências literárias, que se popularizou entre essa juventude; e por fim, uma descrição subjetiva da complexidade dos novos cenários gerados pela “aceleração dos tempos” resultante das inovações tecnológicas. A receita da Legião Urbana, a um só tempo simples e refinada, social e individual, ganhou os corações de milhões de jovens (e não tão jovens) brasileiros. De forma arrebatadora.

Retrato de um país em transformação

O projeto que veio a dar origem a Legião Urbana nasceu no final dos anos setenta. Uma Brasília ainda semi-militarizada, território fértil para que os filhos de funcionários públicos, com amplo acesso à cultura pudessem realizar suas diferentes experimentações. Contando seu breve carreiro solo (com o pseudônimo de “Trovador Solitário”) e a banda “Aborto Elétrico”, Renato Russo atuou de 1978 até 1984 como um catalisador desta insatisfação culta da classe média de Brasília. Território concentrado de contradições, por todos os lados, onde o poder existia nos adornos de Oscar Niemeyer, o Planalto Central foi o berço de um novo movimento de Rock Brasileiro (também conhecido como “BRock). Sintetizando influências internacionais, no embalo do movimento punk- como The Clash, Sex Pistols e outros- com a onda de forte crítica ao regime militar, começavam a surgir nomes como Plebe Rude, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso.

O ano de 1984 mudou, definitivamente, a cara do Brasil. As concentrações multitudinárias nos chamados Comícios das Diretas uniu o que se havia represado durantes vinte anos. Num mesmo movimento, os líderes das greves operárias de 78-80, os novos líderes estudantis, anistiados, membros da resistência armada e civil à ditadura, artistas de todo o tipo, intelectuais. Uma ampla parcela do povo saiu às ruas para repudiar os militares. Os todo-poderosos estavam na defensiva. Aberta a represa, o país chorava seus mortos, mas sorria para um novo tempo. A juventude dos anos oitenta tinha o futuro pela frente. E neste caminho, Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Rocha inauguram em 1985, com o disco "Legião Urbana", uma nova etapa na música brasileira. Um disco com fortes contornos políticos, como também o era “Que Pais é este”, uma coletânea de canções inéditas (1978/1987).

O Brasil dos oitenta atravessava este despertar, operário, estudantil, cultural. Greves de funcionários públicos, marchas de desempregados, reorganização das entidades estudantis. Se por um lado eufórico, o país viu os generais saírem do poder, por outro, hesitante, acompanhou a transição conservadora, derrota da Emenda Dante e a crise e arrocho do governo Sarney.

Neste contexto, as letras foram as mais claras o possível. A conhecida e sempre atual “No senado, sujeira para todo lado”, ou “Desde pequenos nós comemos lixo/ comercial e industrial”. O engajamento político da Legião nunca foi perdido. No disco “V” se pode notar em “Metal contra nuvens” metáfora que expressava a estafa que começava a “Era Collor”. Em “Teatro dos Vampiros” escutamos a desilusão e a desesperança dos que tinham sido jovens nos anos oitenta. 

A derrubada de Collor por uma intensa mobilização juvenil- que entoou uma vez mais “Que país é este”- trouxe mais energia e alento. O disco “O descobrimento do Brasil”, de 1994 reflete esta situação, com a crítica esperançosa de “Perfeição”.

A crítica da Legião era universal, como se pode perceber em canções como “A Canção do Senhor da Guerra” e “Fábrica”.
Legião foi produto destas circunstâncias. Contudo, reduzir a enorme força de sua intervenção artística ao contexto é um reducionismo. A Legião foi muito mais que isso.

Um novo romantismo, autêntico e popular

Outra característica marcante da arte de Renato Russo foi a retomada dos temas românticos. O Brasil avançava,nos anos setenta e oitenta, em direção a um genérico “progresso”. A incorporação de grande conglomerados fabris, avanços no processamento de dados e consumo de novos eletrodomésticos pautavam a idéia de nosso “desenvolvimento”. Na contramão destes novos tempos, Renato Russo retoma as idéias românticas, numa crítica que lembra Walter Benjamim, teórico da crítica ao progresso e do “desencantamento do mundo” Tal analogia aparece mais de uma vez, como na canção “Índios”: Quem me dera, ao menos uma vez/Fazer com que o mundo saiba que seu nome/Está em tudo e mesmo assim/Ninguém lhe diz ao menos obrigado.”

A influência pré-capitalista sempre foi reconhecida por Renato. Seu pseudônimo deve em muito para Rousseau. Em “Geração Coca-Cola” há uma mistura surreal de elementos: ‘filhos da revolução’ como referencia ao golpe de 1964, ‘burgueses sem religião’ como retorno aos ideais rossunianos da revolução francesa, numa canção que de conjunto é uma crítica ao modo de consumo capitalista industrial.

Podemos ver referencias à literatura brasileira. A genial “Faroeste Caboclo” guarda estilo e similaridade com várias obras de Antonio Callado. A idéia de uma trama nacional, ao estilo de Brasília, suas contradições, mostra a sensibilidade popular de Renato.

O novo, porém, ao contrário de outras experiências na música popular brasileira que bebiam em fontes românticas, foi o caráter contemporâneo e popular das temáticas da Legião.

A busca para um sentido para o mundo, tendo como ênfase prioritária a juventude urbana dos anos oitenta, ainda vai se inspirar na melancolia de fontes exteriores a realidade brasileira descrita. A influência de distintas vertentes do rock inglês vai determinar as várias das fases da Legião. Renato Russo, exímio conhecedor do idioma inglês revista vários autores e poetas, com referências múltiplas. Por exemplo, em todas as suas entrevistas, Renato nunca escondeu que sua grande inspiração foram bandas como The Smiths e Joy Division.

Este novo lirismo vai combinar crítica social, representações de melancolia e angústia, bem como de construções utópicas, sejam elas do ponto de vista individual (“lembra e vê que o caminho é um só”) ou social (“nosso dia vai chegar/ teremos nossa vez”).
A popularização destas categorias, muitas vezes, refinadas é um fato inédito na música brasileira. Num momento de consagração do LP e mais tarde, do CD, Legião Urbana alcançaria a incrível marca de milhões de cópias vendidas nos seus álbuns, no final dos anos oitenta.

Temas complexos para tempos complexos

A originalidade das letras do conjunto também instituiu novos padrões para o rock: novas temáticas eram abordadas. Como já exposto, as mudanças na estrutura política e social no país abriram caminho para novos temas. Podemos afirmar que Legião Urbana expressou nas suas letras, por vezes contraditórias, uma apreensão dos tempos complexos.

As relações entre pais e filhos, preconceito, e crises pessoais refletiam as novas estruturas familiares que começavam a aparecer neste período. “Pais e Filhos” foi um marco, pela primeira vez, publicamente se tratava de um tema até então considerado privado.

A utilização de categorias da psicanálise é outro aspecto que podemos considerar como “revolucionário”. Em “Conexão Amazônica” podemos identificar, de forma embrionária, tal presença: “estou cansado de ouvir falar de Freud e Jung”, mostrando que tais pensadores eram presença constante nos círculos de debate do compositor. Em “Meninos e Meninas”, o imaginário da psicanálise, com complexos, culpas e traumas é tratado de forma aberta e poética.
 A discussão da sexualidade inscreve-se nesta seara. Ao assumir a homossexualidade, Renato Russo tomou uma postura engajada. Assim é que, seu primeiro álbum da carreira solo chama-se “The Stonewall Celebration Concert”, alusão a famosa mobilização do movimento gay norte-americano, no bar Stonewall em São Francisco.

Questões como envolvimento com drogas- sempre nebuloso para o mundo glamoroso do rock- foram tratadas com franqueza. Numa das mais belas canções, reverenciando a obra de Thomas Mann, “A Montanha Mágica” é uma expressão da forma honesta com que Renato Russo tratava seus problemas com drogas.

Mudaram as estações, nada mudou?!

A morte de Renato Russo, por conta de complicações ocasionadas pelo vírus HIV, não encerrou o legado da Legião. Sua vida e morte intensa mudaram a história da música e da arte contemporânea em nosso País. 


As contradições essenciais retratadas pelas canções de Renato Russo não foram superadas. Suas rimas apresentam uma atualidade necessária, esperançosa. Sua melancolia é uma expressão das relações contemporâneas, em tempos difíceis e sombrios. Seu legado é testemunho do passado recente, e da mesma forma, incentivo para a reconstrução do futuro. Retomando Walter Benjamim, às gerações futuras cabe re-encantar o projeto utópico do mundo. Com a benção singular de um grande poeta brasileiro, Renato Russo.

2 comentários:

Débora Birck disse...

Grande Israel! Muito bom o artigo.

Abraço,
Débora Birck

dayane disse...

É MODESTA PARTE VOCÊ TEM RAZÃO, RENATO RUSSO FOI TUDO PRO NOSSO BRASIL EM TERMO MUSICAL PODE TER CERTEZA DISSO...RENATO RUSSO HOJE É MINHA VIDA...GIOVANNY SANTA BRÍGIDA