sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tributo ao Carrinho

Deixo aqui o registro desse engraçado site que, com seriedade, defende o futebol viril e de resultados. Remando contra a corrente - em tempos de Ganso, Neymar e Robinho - o site tem uma coletânea de vídeos e fotos preenchidos com textos perfeitamente adequados ao seu espírito editorial.

Deixo aqui além do endereço http://www.tributoaocarrinho.blogspot.com três postagens que eu mais gostei.





Rock também roda o mundo

Inauguro aqui a primeira de uma série de contribuições do amigo, escritor e sociólogo Israel Dutra. Além disso é do PSOL também. Aqui ele relembra Ian Curtis. Para quem conhecia pouco como eu e para quem não conhece nada vale a descoberta.

Para os admiradores agora terão aqui no Rodomundo um pouco mais de cultura.


Trinta anos sem Ian Curtis

Há trinta anos, no dia 18 de maio de 1980, com apenas vinte e três anos e no auge de sua produção lírica, num subúrbio do interior da Inglaterra, Ian Curtis se despediria para sempre da vida.
Sua genialidade foi compartilhada como guitarrista, arranjador, vocalista com estilo singular (sua voz grave foi um dos pontos altos da carreira), e sobretudo, como letrista mordaz e apaixonado.
Sua vida foi marcada pelo convívio em Manchester, tradicional cidade operária. Junto com seus amigos Peter Hoork e Bernard Summer acabou entrando para a história ao formar uma banda que mudaria o cenário musical inglês, influenciando diretamente roqueiros de todo o mundo. Indiretamente, o movimento do Rock Brasileiro dos anos oitenta bebeu do legado de Ian e do Joy Division. Mesmo depois do desfecho trágico, os continuadores do Joy Division, reagrupados no New Order, continuaram marcar corações e mentes com sua arte contemporanea.

Bem vindos aos anos oitenta

Ainda no final dos anos setenta, o Joy Division foi formado por influência direta do punk inglês, em especial do Sex Pistols. Apenas no ano de 1978 que a banda adotou o nome pelo qual seria imortalizada- até então eram conhecidos como Warshaw(em referência a cidade de Varsóvia, por ser um patrimonio de resistência da humanidade, referida numa canção de Bowie). O nome Joy Division fazia menção a uma casa de prostituição, que adotara este nome por conta da área destinada às prostitutas nos campos de concentração. A irônia melancólica do nome servia como senha do estilo Ian Curtis.

Sombrios, cada vez mais sombrios

O final dos setenta na Inglaterra estavam marcados pela ascensão "original" do neoliberalismo. Uma juventude operária marcada pela desesperança e pelo desemprego, expressava na música seus anseios e desencontros. Surgido daí o movimento punk, encabeçado por bandas como os Sex Pistols e o The Clash. Anos mais tarde, como profecia terrível, este sentimento iria se confirmar na gestão pioneira de Margaret Tatcher, que derrotando greves, destroçando direitos de trabalhadores, fazia valer a máxima: "Não há futuro".
Neste contexto sombrio, o Joy Division irá dialogar com o romantismo e a "new wave". A dança desajeitada e furiosa de Ian Curtis, simulando ataques epiléticos em pleno palco seria uma das marcas deste perfil.
Sua influência pode ser vista, no Brasil, nas letras de Cazuza, nos trejeitos de Renato Russo, e mesmo na sonoridade de bandas como o Nenhum de Nós.

Mas, o amor novamente vai nos separar

A obra inacabada do Joy Division e suicídio prematuro de Ian Curtis pode ser visto como o melhor prenúncio dos anos oitenta. Anos de grandes derrotas nas greves mineiras, de auge do Punk, de retorno dos góticos. Anos díficeis e inovadores. Tempos discordantes. No Brasil, o gosto do novo com a queda da ditadura, com novos movimentos artísticos e culturais em Brasília, Porto Alegre e São Paulo. Em Manchester, Londres, uma Europa desencantada, cheirando à ressaca. Como cantaram os Smiths" há pânico nas ruas de Londres, Birminghan..."
Apenas em 2007, Ian Curtis ganhou uma merecida homenagem com uma biografia no cinema, intitulada "Control". Um filme de rara percepção e sensibilidade, com uma atuação brilhante de Sam Riley. Eis uma história que vale a pena conhecer. As melhores locadoras de Porto Alegre tem em suas prateleiras este título.
A desesperança de seu tempo calou o jovem Ian. Sua canção mais conhecida encerrou o veredicto, "uma vez mais o amor vai nos separar".

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Certos feudos têm destino de feudo

Parece que existem lugares no mundo em que o motor da história parou. Óbvio que é só aparência. O movimento das classes não pára. Porém, tem cantos em que a roda anda devagar. Ou pior, parece que anda para trás.

Não li com perplexidade a notícia. O que me fez escrever esta postagem é a imagem. A foto. A cara de pau. A estrela no peito. As estrelas que inspiraram de Olavo Bilac a Mario Quintana também reluz no coração da família Sarney.


Sim, a menina sorridente é Roseana Sarney. A mesma que "ganhou" as eleições na justiça do pedetista Jackson Lago.

A coligação que elegeu Lago se chamava Frente de Libertação do Maranhão e tinha o PT entre os partidos signatários.

O vencedor nas urnas foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral. Encontrei no Blog do Itevaldo que a "ação foi proposta pela coligação “Maranhão - A Força do Povo”, que tinha como candidata a senadora Roseana Sarney (PMDB, a época no DEM), derrotada na disputa eleitoral, que acusou o governador de uma série de irregularidades, como a realização de comícios para doação de cestas básicas, assinatura de convênios para transferência de recursos, distribuição de combustível, convênios com entidade fantasma, abuso de poder econômico e uso da Secretaria de Comunicação Social para a captação ilegal de votos. As transferências irregulares somariam, segundo a coligação, R$ 280 milhões a 156 municípios. (...) Em dezembro de 2008, o ministro [Eros Grau] já havia votado a favor da cassação de Jackson Lago e seu vice, por prática de abuso de poder econômico e captação ilícita de votos."

Pois bem, a Roseana e seu papai José nunca se utilizaram dos meios de comunicação da família, de abuso de poder econômico, de coerção a partir de seus capangas e da máquina pública para uso eleitoral. Sempre venceram eleições com lisura e transparência.

Sarney conseguiu um ano a mais na Presidência da República no episódio da farra de distribuição das concessões de rádio e TV, algumas inclusive para si e para os seus.

Homem dos militares, foi a transição segura após a morte de Tancredo.

Além de garantir Roseana sempre bem posta no seu feudo, seu filhote Fernando é braço direito de Ricardo Teixeira na região norte, sendo vice-presidente da Confederação Brasileira de Futebol por esta região do país. Sim, porque para os Sarney o Maranhão abandonou o Nordeste. O filho é da CBF pelo Norte assim como o dono do Maranhão Sarney pai é senador pelo Amapá.

A ficha corrida do filhinho Sarney está com muitas referências e detalhes na Wikipédia.

Com tudo isso eu não quero dizer o óbvio de que a família Sarney é uma verdadeira gangue familiar que se utiliza do Estado brasileiro como seu quintal, em que pinta, borda, deita e rola. Brinca à vontade, para valer.

Origem da miséria, submissão, concentração de renda e poder no Nordeste brasileiro.

Quero mesmo é dizer que o PT que os trabalhadores brasileiros, maranhenses também, fundaram não é esse conglomerado de fisiologistas, aliados dos piores elementos e governante fundamental dos interesses da elite brasileira.

E se o Brasil crescer um pouquinho que seja até o Serra dá as migalhas.

domingo, 16 de maio de 2010

Die Welle ou quando germina a semente do fascismo


Um filme de fato impactante.

A Onda, produção alemã de 2008, responde a uma questão trazida à tona pelo professor Rainer Wenger, protagonista do filme: é possível ter novas ditaduras?

A predominância de respostas negativas, contrapostas por poucos colegas, levou o professor a uma experiência nada convencional.

O descolado professor Rainer se torna o Sr. Wenger, líder do grupo A Onda.

Tudo começou na semana de aulas em que os estudantes deveriam escolher um tema de seu interesse. O do professor era tratar do tema anarquia, porém devidas circunstâncias o levam ao tema autocracia.

Terceiro Reich, Hitler, neonazismo surge por óbvio, em uma Universidade alemã, num debate sobre autocracia.

A semana de estudos se transformou num movimento para além das salas de aula. Constituiu-se uma irmandade baseada na cooperação, na solidariedade e na colaboração mútua entre os membros da Onda. Entretanto, estas características não garantem melhor sociabilidade entre os jovens. O grupo passa a perseguir dissidentes, discriminar os que não aderem ao coletivo e a desafiar diversos limites.

Os ânimos se acirram e um dos jovens mais introspectivos, ao desfrutar do respeito por ser parte da Onda, perde os parâmetros de convivência e passa a viver para o movimento e para seu líder.

O próprio professor perde o controle ao não ter dimensão de que a experiência de poucos dias de aula levou a uma onda de pichações do símbolo da Onda pela cidade.

Um grupo fortemente disciplinado, unido, com identidades consolidadas e com um inimigo para enfrentar - ora os anarquistas, ora os adversários do time de pólo aquático de outra escola: as bases para uma célula fascista estavam consolidadas.

A obra é inspirada em fatos reais. A experiência mostrada no filme foi realizada por Ron Jones, professor de História Contemporânea da Cuberlly High School, na Califórnia em 1967. Achei um artigo que relata em mais detalhes. [http://www.evenancio.com/2009/01/terceira-onda-um-experimento.html]

O fim dessa história - nada imprevisível - assistam vocês mesmos.


Ficha Técnica (do Wikipédia)

Título no Brasil: A Onda
Título Original: Die Welle
País de Origem: Alemanha
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 107 minutos
Ano de Lançamento: 2008
Estréia no Brasil: 21/08/2009
Site Oficial: http://www.welle.info
Estúdio/Distrib.: Moviemobz
Direção: Dennis Gansel

Virada Cultural


São Paulo é palco de grandes shows nas 24 horas que marcam a Virada Cultural. Evento realizado pela Prefeitura da maior capital do país desde 2005 é um exemplo que deveria ser seguido pelas demais metrópoles brasileiras. Quem dera pudéssemos ter em todas as nossas cidades.

Artistas maravilhosos ao alcance dos paulistanos de graça em vários palcos espalhados pelo centro da cidade.

Por uma tremenda sorte estava em São Paulo na Virada de 2009. A sorte grande estava na coincidência das datas da Virada com a Conferência do Movimento Esquerda Socialista, tendência interna do PSOL que faço parte.

Naquela oportunidade estivemos em vários shows com os camaradas de todos os cantos do país, capitaneados pelos sempre hospitaleiros paulistanos do PSOL.

Saí de lá com três momentos inesquecíveis.

Primeiro estivemos em um tributo Tim Maia Racional, com uma baita banda comandada por BNegão e Thalma de Freitas. Dali em diante não parei mais de escutar essa fase mística do querido síndico.

Segundo: a sensação de estar numa concentração de cerca de 100 Mil pessoas. Isso é indescritível. A energia da multidão, a incalculabilidade da força das pessoas no mesmo espaço e no mesmo espetáculo.

Terceiro foi a incrível banda de forró que não lembro o nome que tocou às 8h30 no palco do Largo da Santa Efigênia, em frente ao hotel SãoPaulo Inn. Ali estávamos nos preparando para voltar à Conferência junto com a nossa presidente do PSOL. O vocalista tocava para cerca de 30 pessoas acabadas por uma noitada de shows. Eis que ele identifica e extasiado anuncia: "Eu queria agradecer a presença da ilustra Heloísa Helena... muito obrigado por estar até essa hora para prestigiar o nosso show".

Foi muito engraçado. O cara ganhou o dia. E nós dançamos cedo da manhã com a Heloísa momentos antes de abrir um dia cheio de discussões.

Desse feriado de 1° de Maio em 2009 ficou a graça da manhã, o espetáculo da madrugada e a emoção da multidão.

sábado, 15 de maio de 2010

Festa no futebol alemão: St. Pauli, time Anticapitalista volta à Primeira Divisão

É com alegria que li esta notícia enviada pelo meu grande amigo farmacêutico Ariston Frasnelli.

Em primeiro lugar pela conquista do St. Pauli, clube ligado às lutas dos trabalhadores, que combate a xenofobia, homofobia e o machismo. Além de ser radicalmente anticapitalista. O segundo é que o autor da matéria é um amigo querido, Pedro Nogueira. Este é da nova safra de jornalistas bons no Brasil, jovem e psolista.

Reproduzo na íntegra a matéria veiculada pelo Terra. Leiam até o fim, é imperdível.

Anticapitalista, St. Pauli festeja retorno à "elite alemã"
14 de maio de 2010 19h39 atualizado às 21h53

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Saint Pauli comemora acesso à 1ª divisão da Bundesliga 619 Foto: Reuters

St. Pauli comemora acesso à 1ª divisão do Alemão; time é reduto de torcedores de esquerda
Foto: Reuters

PEDRO RIBEIRO NOGUEIRA

Em seu ano do centenário, o St. Pauli, clube ícone da esquerda alemã, conseguiu no último domingo, dia 8, o acesso para a primeira divisão do Campeonato Alemão, da qual estava fora desde a temporada 2001/2002.

"Foi fantástico. Depois de quase falir, conseguimos chegar lá. Todo o distrito está em festa. Havia comemorações de mais de 80 mil pessoas", disse Maarten Thiele, estudante de Ciências Sociais e torcedor há 9 anos do St. Pauli.

"A comemoração foi incrível. Conseguimos o acesso fora de casa e eu estava lá, acompanhando o time. Invadimos o campo e celebramos com os jogadores, todos se abraçaram, pularam e cantaram. Eu não conseguia acreditar. Foi um dos dias mais felizes da minha vida", disse.

Localizado no bairro portuário de Sankt Pauli, ponto tradicionalmente alternativo de Hamburgo, é hoje um dos clubes mais populares e queridos da Alemanha, com 11 milhões de torcedores.

A razão de tanto carinho vem do pouco tradicional perfil do clube: é contra o racismo, o fascismo, a homofobia e o machismo por estatuto e é identificado com os movimentos anticapitalistas europeus. Seu presidente não é um bilionário, dono de grandes corporações e de reputação duvidosa, como o italiano Silvio Berlusconi, dono do Milan. Corny Littmann é homossexual e diretor teatral. Patrocionado por uma loja de artigos eróticos, tem na bandeira pirata, com a caveira e os ossos entrelaçados, seu emblema extra-oficial.

O bairro de Sankt Pauli recebeu milhares de imigrantes na década de 60, o que fez com que o tradicional clube que lá existia desde 1910 se identificasse com a emergente luta da classe trabalhadora da periferia de uma das cidades mais ricas da Alemanha. Hoje em dia, o estádio é rodeado por ocupações do movimento anarquista e as ruas do bairro se tornam festas gigantes sempre que tem jogo do time local. Manifestações fascistas, de extrema direita foram banidas dos jogos do time na década de 80, quando o hooliganismo xenófobo crescia assustadoramente na Europa.

Após a conquista do acesso, haverá um grande festival de cultura (http://community.fcstpauli100.com/welcome/daskonzert) e um torneio antiracista (http://www.antira-stpauli.org), cuja renda será revertida para iniciativas sociais do distrito. A iniciativa parte de uma torcida organizada (ultras) que realiza ações sociais para imigrantes sem moradia.

Muitos dos fãs também se organizam em grupos de luta por direitos do torcedores e contra a mercantilização do futebol. Na segunda divisão, aconteceram partidas nas segunda-feiras, o que a torcida considerou injusto, pois muitos trabalhadores não puderam comparecer. Em protesto, a torcida passou os primeiros 20 minutos de uma partida entoando músicas contra as emissoras de televisão. Dentro e fora do estádio, abundam cartazes de conotação política. Se o clube mantém seu caráter independente, sem dúvida essa força vem das arquibancadas. "É mais do que somente futebol. Há uma identificação com o bairro, com a sua gente. Ser anticapitalista, é um estilo de vida", disse Thiele.

Com apoio massivo pelo mundo, são mais de 500 fãs clubes, e contando com a simpatia de bandas como o Bad Religion e Asian Dub Foundation, o St. Pauli tem uma alta média de público - quando estava na terceira divisão chamava 15 mil pessoas por jogo contra a média de 200 da competição. A torcida faz de cada jogo um evento político com bandeiras, mensagens politizadas e cantos contestadores. Os punks, com seu visual chamativo, também marcam presença nas arquibancadas e atraem bastante atenção da mídia.

O clube sempre começa seus jogos com uma música da banda de rock AC/DC e toca a Song#2 do Blur quando saem gols. O St. Pauli também tem um dos últimos placares manuais do futebol europeu. Toda vez que um gol é marcado, um funcionário atualiza a plaquinha. O Estádio Millertorn, casa do St. Pauli, não pode vender por determinação estatutária o nome a uma marca, como aconteceu com o Bayern de Munique e uma empresa de seguros que financiou a Allianz Arena. "Uma vez uma empresa tentou colocar um mascote no estádio. Foi expulso com um banho de cerveja". disse Maarten. O mesmo já aconteceu com uma propaganda machista, que foi jogada ao lixo pela torcida.

Até o ídolo do time participa deste espírito coletivo. Afinal, ele poderia ser mais uma vítima da xenofobia contra imigrantes, um problema bastante atual na Europa. Alemão e filho de pais turcos, Deniz Naki se identificou especialmente com o clube. Durante a disputa da segunda divisão, fez um gol contra o Hansa Rostock, equipe relacionada com a direita alemã. Na comemoração, dirigiu-se a torcida adversária, fez o gesto de que iria cortar-lhes o pescoço e fincou a bandeira pirata no gramado.

Na última vez em que esteve no topo do futebol alemão, derrotou o campeão mundial Bayern de Munique e alguns preconceitos. O que reservará a próxima temporada? Para Thiele, as expectativas superam o futebol: "espero que ele mantenha sua atitude, que estar na primeira divisão não signifique fazer concessões. Tenho confiança de que continuaremos nadando contra a corrente", afirmou.

Saiba mais sobre o St. Pauli:
http://gazzetta.blogsport.de/
http://usp.stpaulifans.de/
http://www.stpauli-fanladen.de/english/
http://www.myspace.com/punkrockstpauli

Matéria acessada dia 15 de maio de 2010 através do link http://esportes.terra.com.br/futebol/europeu/2009/noticias/0,,OI4423151-EI14094,00-Anticapitalista+St+Pauli+festeja+retorno+a+elite+alema.html

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Hugo Scotte

Cometi uma terrível falha, que aqui registro e recupero. O jornalista Hugo Scotte foi quem me disponibilizou várias das informações citadas no texto sobre a Grécia. Além de jornalista, Hugo é militante histórico da esquerda latinoamericana. Orgulha o PSOL sua história e militância atual.

Sobre jornalismo aprendi mais com ele em algumas mesas de bar do que vários semestres na Universidade. Ele é uma das minhas fontes. A fonte das fontes em muitos casos.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Grécia, a explosiva combinação entre as crises econômica, política e social

A Grécia tem sido ponto destacado nos noticiários das últimas semanas, em especial no dia 5 de maio de 2010. As manchetes abordam a profunda crise econômica do país, o enorme déficit público, o tamanho de sua dívida pública e a possibilidade de moratória. Ou então as mobilizações populares contra o Plano de Austeridade exigido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para concessão de empréstimo ao governo grego. Entretanto, não aparece através da grande mídia a correlação entre essas crises.

Na atual crise econômica mundial que estourou em 2007, os governos ao redor do mundo usaram o mesmo receituário: corte de verbas nas áreas sociais, aumento das demissões, diminuição dos investimentos, aumento de impostos, absorção por parte do Estado de dívidas de grandes corporações, a exemplo da estatização da General Motors por parte do governo Obama.

Diversos analistas apontaram o fim da crise e a retomada, mesmo que tímida, do crescimento econômico em escala mundial. Neste momento, vem a Grécia e desmente tudo.

A Grécia faz parte da Zona do Euro, portanto a crise grega é a crise das maiores economias europeias. Vejamos dois dados fundamentais: a Grécia possui um déficit público em cerca de 13% do PIB e sua dívida pública corresponde a 400 bilhões de euros, o equivalente a 115% do PIB. Para o ingresso na Zona do Euro, os países se comprometem a manter o déficit público em, no máximo, 3% do PIB e a dívida possui teto de 60% do PIB. O que se verifica, portanto, é que houve uma maquiagem das contas gregas para que se mantivessem os índices de confiabilidade para investidores/especuladores seguirem atuando na Grécia às custas do aumento do rombo das contas públicas. O Goldman Sachs, banco dos EUA, foi o responsável pela manipulação destes números.

O mais interessante do ponto de vista econômico que nos remete diretamente à crise política e social é conhecer quem são os credores da dívida grega e porquê os “mercados” temem tanto a moratória. Banqueiros alemães, franceses e italianos detêm grande parte dos títulos da dívida grega. Eles são o destino dos 110 bilhões de euros emprestados à Grécia pelo FMI e pela União Europeia. Tudo para garantir que os banqueiros sigam multibilionários às custas do sofrimento do povo grego. A crise social se expressa aqui.

A contrapartida do FMI à Grécia é a aplicação de um severo programa de ajuste fiscal, aprovado no Parlamento no último dia 5. Aumento de impostos de 25% sobre a circulação de mercadorias, diminuição geral dos salários, corte dos 13º e 14º salários do funcionalismo público, aumento do tempo de contribuição para a aposentadoria. As condições de vida serão nitidamente diminuídas. Haverá restrição ao crédito de micro e pequenos empresários. Aumentará a pressão contra os inadimplentes, provavelmente com o confisco de bens. Haverá disparada de preços e diminuição imediata e de alto impacto do poder de compra. O esfriamento do consumo, levará a um enxugamento da produção. A tendência é o aumento do desemprego.

A lógica que os sucessivos governos gregos estabeleceram é a de defender o estado de bem estar dos altos lucros e padrão de vida bilionário dos banqueiros europeus nem que para isso seja necessário um aumento da miséria e da precariedade da vida do povo grego.

Essas medidas desencadearam a crise política que gerou forte rejeição ao governo por parte do povo e que impulsionou a greve geral no dia da votação do Plano de Austeridade. Centrais sindicais e partidos de esquerda organizaram as mobilizações que contaram com 300 mil manifestantes em Atenas – que possui 3,7 milhões de habitantes em sua região metropolitana – e outros 30 mil em Salônica, importante cidade portuária com cerca de 750 mil habitantes.

Os gritos de “Fora FMI” estão nas ruas da Grécia. Especula-se, porém, a possiiblidade de uma “argentinização” do país. As mobilizações multitudinárias de dezembro de 2001 conhecidas como “Argentinazo” derrubaram 5 presidentes em uma semana. As passeatas foram a resposta ao Corralito, plano do Ministro da Economia Domingo Cavallo, que restringia os saques de dinheiro das contas correntes. Os argentinos ecoaram que se vayan todos em referência aos políticos, à Suprema Corte de Justiça e aos banqueiros. Esse é um dos medos das elites gregas e europeias.

As diversas crises instaladas na Grécia têm correspondência semelhante e imediata também em Portugal, na Espanha. Esses três países juntos com Itália e Irlanda formam os PIIGS, sigla em inglês que corresponde aos cinco países com as dificuldades econômicas mais significativas na União Europeia. Aqui se expressa outro temor: de que a crise grega se reproduza na Península Ibérica, na Irlanda e na Itália.

Esse ambiente de total instabilidade de fato abre um cenário de imensas possibilidades. Lembremos que em dezembro de 2008 as mobilizações, devido à morte de um adolescente por parte de abuso da força policial, foram decisivas para derrotar o governo da Nova Democracia, partido conservador, substituído nas eleições gerais de outubro de 2009 pelos socialistas do PASOK, sigla em grego que significa Movimento Socialista Pan-Helênico. O governo do socialista Giorgous Papandreau impôs o Plano de Austeridade. Essa situação levou os dois partidos mais fortes da Grécia, que juntos possuem 251 das 300 cadeiras do Parlamento, a ter amplo rechaço popular.

Há unidade de ação na construção das mobilizações entre o Partido Comunista Grego, que possui 21 deputados, e a Coalizão da Esquerda Radical, encabeçado pelo Synaspismos, com 13 deputados.

Nós do PSOL, através da Secretaria de Relações Internacionais, temos contato com este último partido, presidido pelo jovem Alexis Tsipras de 33 anos.

Aqui do Brasil denunciamos o papel do governo Lula. O presidente brasileiro enviou US$ 286 milhões ao FMI que remeterá à Grécia. Na verdade, Lula ajudou a garantir os lucros bilionários dos banqueiros franceses e alemães. Ao mesmo tempo deu, além do dinheiro, respaldo político para o FMI exigir o Plano de Austeridade que assola o povo da Grécia.

Se não podemos prever que o rumo desta crise será o socialismo, também não podemos negar que o espectro do comunismo segue rondando a Europa. A mensagem vem da Acrópole, na qual faixas diziam, em grego e inglês, “Povos da Europa, levantem-se”. Para quem esqueceu, a Acropóle era o lugar do templo de Atena, a deusa grega da guerra justa. E não há maior justiça que aquela em prol da maioria. E tudo isso no mesmo 5 de maio, dia de nascimento de Karl Marx.

Fontes: Fundação Lauro Campos, Agência EFE, CartaCapital (edição 595), The Economist, Wikipédia, G1, Página 12 e Synaspismos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

3 de maio



Eu não podia deixar de registrar o dia de hoje até porque ele dois marcos históricos vieram automaticamente a minha cabeça hoje de manhã.

O primeiro foi em 1968. O maio que mudou os costumes do mundo no século XX começou em parte pelas mobilizações na Sorbonne, Universidade parisiense, neste dia. Foi o primeiro choque entre estudantes e polícia. A reivindicação era de que o alojamento estudantil fosse misto, de uso de homens e mulheres.

Os desdobramentos disso levaram o governo de Gaulle à lona, após sucessivas greves gerais, e enfrentamentos nas principais ruas de Paris e Nanterre. Barricadas foram erguidas e o Quartier Latin, bairro majoritariamente de estudantes em Paris, foi o quarto general da resistência juvenil.

Já em 2007 é o dia que iniciou da mais recente ocupação da Reitoria da USP. Cerca de 400 estudantes tomaram o prédio por uma série de pautas específicas que foram se ampliando de acordo que o movimento crescia.

A repercussão transcendeu o estado de São Paulo e embalou a mobilização de milhares de universitários Brasil afora. Nós aqui em Porto Alegre ocupamos a Reitoria da UFRGS em 05 de junho. Em solidariedade à USP e por todas as nossas lutas. Nossa pauta tinha a implementação das cotas, a construção do Restaurante Universitário para o campus da Educação Física, novo prédio para o Instituto de Artes, Casa de Esutdante para o Campus do Vale, entre outras.

Fomos quase completamente atendidos. As cotas são uma realidade na UFRGS. Os estudantes da Educação Física almoçam no mais novo Restaurante Universitário da Universidade.

Em 2007 sacudimos a poeira acumulada sobre as páginas da história das grandes lutas da juventude. Voltamos à cena contrariando aqueles que diziam que a gente era coisa do passado.

Esse estopim se potencializou pelo Fora Yeda em 2009. Reeditamos os Caras Pintadas aqui no Rio Grande do Sul. A luta contra a corrupção embalou uma nova geração de jovens nas ruas. Gente de 14, 15,16, 20, 25 anos. Muitos dos mais novinhos ainda nem ouviram falar nos feitos de 68. Em breve saberão que são os herdeiros daqueles que ousaram lutar por um mundo novo. Um mundo de minissaia, de pílula anticoncepcional, de sexo livre, de expressão livre, de sonhar em tomar o poder e mudar de verdade o mundo.

Maio de 68 segue vigente justamente porque o poder mudou de nome e de cara, mas não de mãos.

Os muros de Paris indicaram o caminho.