sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Juntos pelo Ensino Médio. Barrar o decreto de Tarso: queremos uma reforma para melhor

A Educação Pública gaúcha tem sérios problemas. Alta taxa de evasão, prepara muito pouco para o vestibular e o estudante enxerga o ensino médio mais como obrigação, do que com algo que tenha a ver com o seu futuro. Causa indignação o descaso de todos os governos até agora com a Educação. Baixos salários para os professores e funcionários, falta de perspectiva e valorização, muitas escolas com infraestrutura precária. Aproveitando-se desta situação, o governo Tarso Genro apresentou uma proposta de mudança total na educação do Ensino Médio. Em apenas 3 anos acabará o Ensino Médio como conhecemos e será totalmente trocado pelo Ensino Politécnico. Mas o que isso representa? Conheça 5 pontos que nos levam a ser contra essa reforma.


1 – ENSINO POLITÉCNICO: FÁBRICA DE MÃO-DE-OBRA BARATA

O ensino politécnico será uma mistura do ensino médio atual com o ensino técnico, um pouco de cada. Infelizmente, o estudante perde dos dois jeitos. Não será um técnico, especializado numa área, nem estará preparado para o vestibular.

Segundo a cartilha distribuída pela Secretaria da Educação (SEC), o governo avalia que o sistema educacional atual está dissociado do tempo social, cultural, econômico e dos avanços tecnológicos da informação e da comunicação”. Para resolver o problema, o governo quer “desenvolver um projeto educacional que atenda às necessidades do mercado”. Para isso, os currículos terão uma mescla das disciplinas atuais (português, matemática, história, etc) e tecnológicas.

Essas disciplinas tecnológicas são totalmente voltadas para a formação dos estudantes de acordo com as demandas produtivas da sua região. Pode parecer lógico, mas na verdade o currículo escolar será moldado pelos empresários da região, não mais pelos educadores, que estudaram muitos anos para serem professores. De acordo com a cartilha da SEC, os estudantes de Caxias do Sul, por exemplo, serão preparados para a indústria metalmecânica e automotiva, independente de sua vontade. Quem quiser outra profissão, sairá da escola com baixíssimos conhecimentos gerais e com algum conhecimento de metalmecânica, mesmo que nunca utilize para nada.

2 – UNIVERSIDADE PARA TODOS OU SÓ PARA ESTUDANTES DA ESCOLA PARTICULAR?

Veja como ficará a carga horária no ensino politécnico. No 1º ano, serão 75% de disciplinas atuais e 25% tecnológicas. No 2º ano, 50% a 50%. No 3º ano, apenas 25% de disciplinas atuais e 75% de tecnológicas. No terceiro ano do Ensino Médio, às vésperas do vestibular, o estudante terá apenas 1 período semanal de matemática, português, história, literatura, geografia, física, química, biologia, filosofia e sociologia. APENAS um período de cada matéria no ano do vestibular. O resto do tempo estarão dedicados às pesquisas e aos estágios curriculares obrigatórios, todos direcionados para a vontade dos empresários locais.

Hoje, já é difícil para um estudante da rede pública disputar uma vaga contra candidatos da escola particular. Tarso Genro tem a solução: se é difícil entrar numa faculdade, não perca tempo tentando. Infelizmente, o Ensino Politécnico praticamente extingue as possibilidades de ingresso na Universidade para estudantes da rede pública. No projeto do governo do estado, quem sai ganhando é a escola particular que seguirá preparando os estudantes para os cursos verdadeiramente de qualidade das Universidades.

3 – EDUCAÇÃO DE QUALIDADE NÃO SE FAZ POR DECRETO

O governo pretende acabar com o Ensino Médio e criar o Ensino Politécnico através de um decreto, já em dezembro de 2011. As escolas e os professores mal conhecem o projeto. Isso acarreta dois problemas: primeiro que a reforma do ensino médio será totalmente autoritária e sem debate democrático com a comunidade escolar. Segundo, as escolas não saberão aplicar as mudanças, pois não sabem como funcionará o ensino politécnico.

4 – ESTÁGIO OBRIGATÓRIO NÃO REMUNERADO E DESEMPREGO À VISTA

A verdadeira alegria dos empresários das regiões são os estágios curriculares obrigatórios para o estudante se formar no Ensino Médio. Seguindo o exemplo da cidade de Caxias do Sul., durante o Ensino Médio, as matérias foram direcionadas para o setor metalmecânico e automotivo. O estágio obrigatório será nas indústrias do setor. Esses estágios obrigatórios são necessários para se formar, mas não é obrigado ao empregador pagar ao estudante. Ou seja, todos os anos teremos milhares de estudantes obrigados a estagiar para se formar, em um único ramo econômico, na maioria das vezes gratuitamente. O impacto na cadeia produtiva pode levar a um aumento do índice de desemprego, diminuição de trabalhadores com carteira assinada, já que todo o ano novas levas de estudantes serão obrigados a estagiar para se formar. O inacreditável é que depois de formado será quase impossível conseguir emprego na área com salário digno, visto que a empresa terá a disposição novas levas de estudantes.

5 – ONDE ESTÁ A VERBA DA EDUCAÇÃO?

A Constituição do Rio Grande do Sul diz que 35% do orçamento do Estado deve ser investido em educação. Yeda nunca cumpriu e nunca foi punida. Tarso foi eleito e também não cumpriu. Além de melhorar o projeto pedagógico das escolas, elas precisam de fortes investimentos, para valorizar os professores e funcionários, além de equipar as escolas com livros novos, computadores modernos, materiais esportivos adequados e salas de aula mais apropriadas.

Infelizmente, ainda assistimos a muitos casos de corrupção e mal uso do dinheiro público. Para se ter ideia, o RS paga anualmente quase R$ 3 bilhões para o governo federal, referente à dívida estadual, que ninguém sabe do que é composta, e que quanto mais se paga, mais se deve. Você pagaria uma conta qualquer sem saber o que está pagando? Aceitaria uma dívida que quanto mais paga, mais se deve? Na verdade, a dívida estadual é um grande assalto aos cofres públicos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A pessoa importante


Israel Dutra*

Flávia Castro realizou uma obra épica. Mais que isso: necessária. Sua proposta era ousada e delicada. Contar sua história, a história de sua busca, a partir dos eventos sociais e políticos, não é uma tarefa fácil. Em todos os pontos, tudo se confunde de uma ou outra maneira. E ela não nega tal “confusão”. Ao contrário, oferece intimismo e seriedade, num documentário que desvela mais do que seu roteiro. Toca fundo.
O filme conta, a partir do rico olhar de Flávia, a trajetória de seu pai, o militante Celso Afonso Castro, morto em  circunstâncias até hoje pouco esclarecidas, no ano de 1984.  Tal morte se constitui num mistério insolúvel: Celso Castro e Nestor Heredia, ativistas de esquerda teriam se suicidado dentro do apartamento do ex-oficial nazista residente em Porto Alegre, Rudolf Goldbeck. Ao reconstituir o cenário do estranho “crime da Rua Santo Inácio”, Flávia conclama o que restou da sua família[a mãe, o irmão, a meia irmã, a avó] para testemunhar sobre os valores, as experiências, enfim, a “obra” de Celso Castro.
O dialogo que ilustra melhor o sentido da “busca” é o que ela trava com um chileno. Ao voltar com sua mãe para o Chile, na residência onde tinha morado durante o exílio, Flávia fala de seu pai. Um dos atuais moradores da casa, pergunta, obviamente: - Seu pai foi uma pessoa importante? A resposta também óbvia é a própria “alma” do filme. “Para mim, sim.”

A dimensão da importância. Da grandeza. Das proporções relativas das causas, dos Projetos, das vidas. É disto que trata o filme de Flávia. É um documento sobre um tempo histórico, sobre fragmentos. Celso e sua então companheira, Sandra- mãe de Flávia e João Paulo- eram militantes do pequeno e combativo Partido Operário Comunista (POC). O filme começa com uma reunião de família, em 2002, no entorno do laguinho do Parque da Redenção. A mãe de Celso conta firme a trajetória e os primeiros passos da militância do filho, no tradicional colégio “Julinho”. A força da voz da mãe de Flávia, Sandra, uma mulher emancipada, combativa, vivaz, ganha peso nas entrevistas. Como companheira, amiga de sua filha. As indagações do irmão menor, João Paulo também emocionam por sua autenticidade.
Durante o documentário aparecem importantes personalidades da esquerda. Flávio Koutzii(ex-deputado do PT do RS),o intelectual gaúcho Pilla Vares,  Jean Marc(que tinha sido presidente da UNE e foi também padrasto de Flávia) e até Daniel Bensaid, histórico dirigente marxista francês, que só corroboram a “importância” relativa da atividade de Celso.
O POC se desfez deixando como legado sua  combatividade. Tal herança política que foi fundamental na organização do projeto mais à esquerda dentro do PT gaúcho. Sua adesão à luta armada, orientada pelas teses do seu dirigente internacional Livio Maitán, resultou frustrante.  As chagas desta linha política não se fecharam jamais para o projeto de Celso Castro. Depois de andanças pela Argentina, Chile, Europa, por fim, Venezuela. A volta ao Brasil, em 1979, como parte da luta democrática pela anistia é uma esperança. A vida política da esquerda em torno da formação de um partido operário também o entusiasma. 
Seus últimos dias são controversos. Sua desilusão é notável. Suas últimas cartas reportam à perda da utopia, da magia altruísta.
Moinhos de Vento é o nome do bairro do fatídico crime. Um crime ainda sem desfecho, com toques de “realismo fantástico”. Moinhos de Vento também acompanham na história aqueles que sonham com utopias. O contraste entre o real e o utópico se faz insuportável, por vezes.
O grande do filme de Flávia Castro é a reconstrução de um sentido universal para a sua busca. Uma busca pela Verdade, factual. E uma busca pela justiça, da restituição do sentido de grandeza que podemos dar às nossas ações, aos “nossos” e às nossas trajetórias.

* Israel Dutra é Sociólogo e Mestre em Educação, ambos pela UFRGS. É membro da Direção Nacional do PSOL e colabora com o Rodomundo.

sábado, 10 de setembro de 2011

Coisas dos '90


Ah as paixões da infância
essa coisa arteira que contamina os pingos de gente

essas coisas inacabadas, incertas
que a gente não vê crescer

como era boa a paixão e o amor sem curvas
das crianças que se admiram pela simpatia e pelo cheiro pueril

o amor-imaginação
é uma das coisas que não podem acabar nunca

aquele nervosismo por pensar como seria se um dia tivessemos a chance
bendita

muitas vidas depois
a gente vê de longe, morena, distante

e só sabe que assim como tu
outros tantos e tantas miram à distância

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Notas sobre Líbia, o imperialismo e a revolução árabe


Pedro Fuentes (*)

Os combatentes rebeldes líbios, já apoiados por uma grande parte da população de Trípoli, estão acabando com os últimos focos de resistência de Gaddafi. Trata-se de um novo triunfo, mais um da revolução que se desenvolveu no mundo árabe a partir do começo do ano e que seguramente se estenderá a Síria, Iêmen, Marrocos, Argélia. Nosso partido não pode se confundir de maneira nenhuma dando apoio – mesmo que crítico – a Gaddafi ou Bashar al Asad. Nós, que defendemos as bandeiras do “socialismo e da liberdade” ficaríamos do lado oposto às revoluções democráticas, que estão comovendo o mundo e a dominação imperialista.

A revolução na Líbia, por ser o processo mais complexo da região abriu uma série de questionamentos. Sete semanas após seu começo e quando as tropas de Gaddafi ameaçavam Bengazi, a OTAN interveio com seus bombardeios aéreos. É a partir daí que surgem dúvidas em muitos lutadores e que setores da esquerda também planteiem que o que ocorre é um triunfo do imperialismo. Trata-se de um debate muito importante. Se aceitarmos esse raciocínio o que estaria acontecendo é que na região árabe é que na região árabe se iniciou uma contra-revolução que vence una Líbia. Sob a idéia de uma luta contra o imperialismo estaríamos justificando as matanças de Gaddafi e de Bashar al Asad de milhares de lutadores. Esse mesmoraciocínio levaria a pensar que definitivamente o que houve no mundo árabe foi revoltas que terminaram controladas pelo imperialismo.

É verdade que a Líbia é um país cobiçado por sua riqueza petroleira e por causa dela os perigos da ingerência imperialista existem. Mas, o mais importante e determinante da situação é que o velho regime está sendo derrubado; esse é o triunfo do povo líbio e da revolução democrática árabe que deu um novo passo adiante.

O Levante Popular na Líbia e a Guerra Civil

As manifestações revolucionárias iniciadas na Líbia em 16 de fevereiro em Bengazi e que logo se propagaram a varias cidades chegando à Trípoli sob o lema “Fora Gaddafi”, foram um feito previsível. A Líbia se encontra geograficamente entre Tunísia e Egito, os dois países que, nessa data já haviam instalado revoluções populares. Gaddafi não era muito diferente de Ben Alí e Mubarak; Conduzia também um regime autocrático no qual não cabiam mais partidários que os de sua família e se mantinha com o controle por meio da repressão. Com o levante revolucionário que encabeçou em 1969, a Líbia se converteu em um país independente. Mas, como já aconteceu muitas vezes na história, o governo nacionalista foi se degenerando para culminar em 2000 com um forte acordo com o imperialismo. Os abraços com Tony Blair, Berlusconi e, mais recentemente a própria Hillary Clinton, selaram a abertura da riqueza petroleira para as empresas estrangeiras. ENI da Itália, Winterstal da Alemanha, Total da França, Marathon e Philips dos EUA obtiveram grande parte do petróleo líbio. Esses abraços foram mais estreitos quando Gaddafi tomou partido na “Guerra contra o Terror” de Bush a partir da qual se justificaram as invasões do Iraque e Afeganistão. Gaddafi assumiu uma posição ativa de perseguição do islamismo e uns dos principais suportes da política imperialista em toda a região.

O levante popular foi protagonizado pelo povo, com os jovens da vanguarda, da mesma forma que sucedeu em outros países. Bengazi, uma zona tradicionalmente opositora, se transformou no centro da revolução e as mobilizações se estenderam para numerosas cidades alcançando Trípoli alguns dias depois.  Jamal Jaber, militante libanês que esteve em Bengazi enviado pela revista trotskista Inprecor relata, em um recente artigo sua experiência em Bengazi. Ele fala de uma “total liberdade de expressão e uma vida associativa intensa.” Destaca como impactante a participação das mulheres nas atividades da Praça da Liberdade, rebatizada com esse nome (era Praça dos Tribunais). Ele disse que pode constatar uma quantidade de demandas exigindo a emancipação das mulheres, assim como uma participação muito grande de jovens. Relata que na praça havia um grande cartaz que dizia “Por uma Líbia unida contra a divisão” e algumas fotos do Che e de Bob Marley entre os jovens muito ativos. Um grande cartaz dizia “Palestina e Líbia: revolução para a nação árabe”. Tivemos a possibilidade de estar na Praça Tarhir do Egito o una Boulevard Borguiba de Túnis, podemos compreender que era algo muito similar com o que se passava no país.



“Esmagar os revolucionários como ratos”

A diferença com essas revoluções é que na Líbia o regime não caiu, Gaddafi resistiu às primeiras grandes investidas populares e lançou uma brutal repressão. Seif Al Islam, seu filho e sucessor, graduado em Economia e Relações Internacionais em Londres, ocupou a televisão para afirmar de forma ameaçadora que estavam dispostos a usar toda a força militar para esmagá-los como camundongos. E assim o foi. Apesar da deserção de alguns líderes e ministros, Gaddafi manteve o controle do exército para lançá-lo brutalmente contra o povo mobilizado nas ruas. A repressão sanguinária custou milhares de mortes. O povo não se assustou e se armou graças ao assalto a delegacias e quartéis e com isso, a revolução deu um passo para transformar-se em um enfrentamento armado desigual. Em um primeiro momento as milícias que foram conformando o exército rebelde conseguiram avançar sobre cidades importantes e com ele surgiu a Autoridade Provisória que agora passou a se chamar CNT (Conselho Nacional de Transição). Esse exército não-profissional foi o resultado de uma ampla frente anti-Gaddafi formada pelos jovens voluntários que surgiram nas praças, militantes do islamismo agrupados na Irmandade Muçulmana, setores democráticos de classe média, entre eles muitos profissionais, e setores burgueses que se localizam em Bengazi. Há, inclusive, militantes islâmicos radicais que têm conexões com a Al Qaeda. 

Sua preparação improvisada e seu plano militar espontaneista e caótico tornou possível que Gaddafi, com base nos bombardeios de sua aviação e seu exército profissional recuperasse terreno e lançasse uma ofensiva brutal e sanguinária que impôs um cerco ameaçador sobre Bengazi. 

A intervenção da OTAN

A OTAN interveio quando se preparava um banho de sangue exemplar em Bengazi para terminar com a revolução. Não seria a primeira vez que Gaddafi lançaria uma repressão violenta sobre esta cidade: o fez em 1984 contra um levante popular da oposição.

Há de se destacar que o imperialismo deixou a ofensiva de Gaddafi correr durante todo esse tempo. Os rebeldes pediam armas, que os países ocidentais se negavam a dar sob o pretexto de não armar os islâmicos vinculados à Al Qaeda. Os rebeldes também pediram o fechamento do espaço aéreo no início de março e a Liga Árabe fez o mesmo em 6 de março. A ONU aprovou sua resolução no dia 17 do mesmo mês e sua intervenção começou vários dias depois. Dessa maneira, as Nações Unidas intervieram quando a revolução estava debilitada, e para evitar que aparecessem como cúmplices da matança aos olhos da grande maioria da população mundial. Os rebeldes apelaram aos únicos que podiam apelar para defender sua revolução e Bengazi. Estavam entre a cruz e a espada, morrer como ratos ou salvarem-se por meio dos bombardeios da OTAN. Como escreveu Gilbert Acchar em seus artigos publicados no Inprecor, nesta situação era lícito fazer um pacto com o diabo.

No já citado artigo de Jamal Jaber, ele também conta que, “a maioria dos insurgentes que entrevistou em Bengazi, sobretudo os jovens, continuam pensando que a intervenção da OTAN é necessária para acabar com o que resta do regime de Gaddafi e estender a autoridade do CNT (Conselho Nacional de Transição) sobre o conjunto do território. Mas que se trata de um acordo de curto prazo”. “Quando eu frisei que se tratava de uma questão perigosa, eles me responderam que não era mais de uma convergência de interesses em curto prazo, e que eles, (os imperialistas) não teriam mais vantagens sobre o petróleo das que Gaddafi já havia acordado”.

Então, não é uma coincidência que apesar da heterogeneidade, esta frente anti-Gaddafii nunca pediu soldados em terra. E não é por coincidência que um dos cartazes mais significativos na Praça da Liberdade dissesse “Não à intervenção estrangeira sobre o nosso solo”.

Por isso, era e é um erro pensar que a partir dos bombardeios os rebeldes se transformaram em uma peça do imperialismo. Dessa maneira perde-se de vista o conjunto da revolução árabe e da Líbia como parte dessa revolução, bem como as grandes diferenças que essa ação militar possui em relação a outras levadas a cabo pelo imperialismo. O imperialismo é sempre um inimigo, evidentemente, e até que as massas o derrotem no mundo, são o principal inimigo no sistema capitalista. Mas há que se fazer uma análise concreta da situação em que atua; nem todas suas intervenções são iguais e têm a mesma força.

Porque a Líbia não é o Iraque

A intervenção na Líbia é muito diferente das guerras de Bush e Rumsfeld no Afeganistão e no Iraque em importantes aspectos. Iraque e Afeganistão foram guerras de conquista territorial com objetivos colonialistas, nas quais os bombardeios altamente destrutivos tinham como finalidade facilitar a ocupação militar dos territórios. Ademais, nesses países havia no poder governos autocráticos que tinham controle total sobre o regime. Na Líbia, a intervenção ocorre quando há uma revolução em curso e depois que se deram mal nas guerras de conquistas que mencionávamos. É uma opinião geral que no Iraque não conseguiram implementar seus objetivos e tiveram mais perdas que ganhos, por isso estão se retirando, e que o Afeganistão vai pelo mesmo caminho.

Se até agora não foi posto na Líbia nenhum soldado em terra e não se encarou como uma guerra de conquista, se deve à luta das massas líbias, das massas árabes e das derrotas sofridas no Iraque e Afeganistão. Isto não quer dizer que na nova situação – como logo veremos – não se tente como em muitos outros países desembarcar uma tropa de paz sob o pretexto de conter a anarquia e as mortes. Mas é totalmente diferente de uma ocupação militar. Esta política distinta se expressa também no fato de que pela primeira vez a ação militar não foi encabeçada pelos EUA e sim pela França. As diferenças entre o número de aviões e de bombardeios entre essas guerras, e mesmo a do Kosovo, com a Líbia é muito grande. (Na “tempestade no deserto” em 11 dias no Iraque foram feitas 2.555 incursões por dia, no Kosovo os aliados usaram 1.100 aviões e realizaram em 78 dias 38 mil incursões, na Líbia foram 250 aviões que efetuaram em 124 dias 11 mil, ou seja, 57 incursões por dia).

Em um artigo de opinião no jornal inglês The Guardian, Mohamed Salem escreveu: “Se nos disserem que a Líbia está destinada a ir pelo caminho do caos e da fragmentação. Que a Líbia será outro Iraque ou Afeganistão. Se enganam, porque o cenário pós conflito é diferente destes exemplos onde a intervenção militar teve fracassos cruciais. Na verdade, se estuda os acontecimentos, Líbia está a ponto de ser o mais completo e com mais possibilidade êxito da maioria dos levantes árabes”.

E de fato isto pode ser dessa forma. Porque no Egito e Tunísia a revolução democrática terminou com o regime autocrático, mas não com todas as instituições dele; ficaram o exército, a polícia e a justiça e sobre estas a burguesia tenta – e pode talvez conseguir – conter e amortecer o processo para que não se aprofunde. Na Líbia a situação é outra. O regime está totalmente desfeito, uma grande do povo está armado, e por isso mesmo existem as condições para que o processo democrático popular revolucionário avance com novas instituições.

Não por coincidência a política do imperialismo foi a de tentar até o último momento uma negociação com Gaddafi para que isso não ocorresse. Antes e durante os bombardeios se negociava um plano de divisão do país, com os rebeldes controlando o Oriente com a capital em Bengazi e o ocidente com Gaddafi, ou um sucessor, com capital em Trípoli. Recordemos que a resolução da OTAN e as declarações dos líderes ocidentais sempre foram muito cuidadosas sobre o que fazer com Gaddafi.
Se a divisão da Líbia não ocorreu foi pela luta dos rebeldes e em particular pela heróica resistência que fizeram em Misrata, cidade localizada a oeste na zona controlada por Gaddafi. Os habitantes desta cidade agüentaram dois meses de ataques de Gaddafi. “Jogaram-nos de tudo, até mísseis Grad. Também nos atacaram pelos lados. Eles têm melhores armas e mais meios, inclusive instrumentos de visão noturna”, contava um morador ao diário El Pais, da Espanha. Esse cerco a Misrata foi pouco repelido pela OTAN, que deixou Gaddafi livre. Foi a heróica resistência dos rebeldes que conseguiu rompe-lo. E são estes combatentes de Misrata que agora cumprem um papel fundamental para a tomada de Trípoli e a marcha até Sirte. Foi assim que o processo revolucionário avançou e evitou a divisão do país.
A nova situação está perfeitamente sintetizada na nota de Mohamed Salem que citamos: “Líbia está a ponto de ser o mais completo e com mais possibilidade de êxito da maioria dos levantes árabes”, ou seja, estão em condições para avançar até um regime novo, uma assembléia constituinte que reconstrua o país sobre outras bases democráticas.


Sergey Ponomarev / AP
Impedir a política de controle do imperialismo

Derrotado Gaddafi o povo tem a grande tarefa de reconstruir o país sobre bases democráticas e independentes. A partir da queda do ditador a frente anti-Gaddafi vai separar-se entre aqueles setores mais vinculados com o imperialismo e os mais autênticos representantes da revolução líbia. A nova questão que se coloca é impedir as tentativas do imperialismo que, em retrocesso em toda a região, pretende recuperar algum peso político a partir de Líbia e ficar com o petróleo desse país. A tarefa a partir deste novo momento é a de solidariedade com o povo líbio para impedir a política colonialista que começará sobre a base de ajudar a reconstrução do país. O que Líbia precisará é ajuda humanitária solidária e não a presença de missões da ONU, que sob o pretexto da pacificação, pretenderão pôr o pé do imperialismo no país.

A revolução árabe golpeou o imperialismo na região

A revolução árabe, ou apesar dela para aqueles que defendem Gaddafi, virou de cabeça para baixo o esquema de dominação imperialista na região, que se sustentava com o apoio das ditaduras árabes – excetuando a Síria – à política dos EUA no conflito entre a Palestina e Israel. Com a queda de Mubarak no Egito todo arranjo imperial mudou. A revolução árabe teve conseqüências diretas até mesmo em Israel, onde começaram mobilizações de indignados reunindo mais de trezentas mil pessoas. O imperialismo está correndo atrás, na defensiva, em um processo revolucionário que, como assinalava o cartaz na praça de Bengazi, tem fortes elementos antiimperialistas, “Palestina e Líbia: revolução para a nação árabe”. Temos visto a bandeira palestina em todas as manifestações ocorridas na região; o rechaço à política dos ditadores e o apoio à causa palestina são componentes importantes da revolução árabe. As ditaduras estão caindo pelas suas políticas econômicas e seu regime opressor, mas também porque são vistas como os agentes traidores no mundo árabe da luta do povo da Palestina.

Uma pesquisa de um importante instituto dos EUA sobre o prestigio do governo dos EUA na região, que se faz anualmente a 4 mil pessoas em seis países árabes (Marrocos, Egito, Líbano, Jordânia, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos), mostra a queda impressionante que teve o governo Obama em 2011, o ano da revolução. O informe diz que “Quando Obama fez o pacto na Universidade do Cairo em 2009, há 100 dias no cargo, a aprovação dos EUA passou de 9% em 2008 (era Bush) para 30%, mas agora caiu para 5% na pesquisa desse ano”. “No Marrocos, por exemplo, as atitudes positivas fizeram os Estados Unidos passar de 26% em 2008 a um pico de 55% em 2009 e hoje em dia caiu a 12%”. O informe conclui dizendo que “este é um balde de água fria sobre as ilusões de alguns analistas nos EUA e em Israel, que queriam imaginar que, no contexto da primavera árabe, os árabes sentem que o tema palestino não é tão central para suas vidas”.

Os perigos para a revolução árabe existem. Nesse rico processo, todavia, não surgiram direções antiimperialistas conseqüentes ou socialistas, nem classistas com peso de massas. Essa situação não é culpa das massas destes países, mas sim uma conseqüência que pagamos pelo descrédito que tem o socialismo com alternativa real, como decorrência da experiência do socialismo estalinista que fracassou, e que dominou por décadas, setores importantes do movimento de massas. Mas essa ausência não pode servir para desmerecer as grandes ações que as massas realizaram, e com elas as mudanças que estão fazendo no mundo e sua própria aprendizagem que levará mais cedo ou mais tarde à formação de novas alternativas revolucionárias. Nisso temos que apostar. O que fazem é muito; estão mudando o planeta e por isso vivemos em um mundo mais explosivo desde que os povos árabes saíram à luta em janeiro. Estamos em agosto e já tivemos as praças da Espanha e Grécia, a revolta inglesa, as lutas do Chile, as grandes mobilizações contra a corrupção na Índia e as greves do Cazaquistão. A insuspeitamente esquerdista revista Forbes assim titulou um recente artigo: “Os conflitos no Reino Unido e a nova guerra de classes mundial”. É verdade, a luta de classes voltou e nela temos que apostar para avançar no caminho do socialismo com liberdade.

(*) Secretário de Relações Internacionais do PSOL 
e da Direção Nacional do Movimento Esquerda Socialista, tendência interna do PSOL

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Manuel Gutierrez, 16 anos

Depois de três meses de mobilizações estudantis no Chile por gratuidade na educação, o governo assassinou um estudante.


Carabineros de Chile: bombas, tiros e morte. Foto: UOL
Sim, os policiais, los carabineros, são, segundo todas as testemunhas, os autores dos disparos que serviriam para dispersar um dos centenas de focos de mobilização.


Não foi despreparo, foi o ápice de uma orientação do governo de Sebastián Piñera, o mais pinochetista dos presidentes do Chile, desde a redemocratização.


Após dois meses sem respostas concretas, com baixíssimos indíces de popularidade (26% segundo a última pesquisa), tendo substituído o Ministro da Educação durante os protestos, Piñera autorizou a repressão desenfreada. 


Já se jogaram aos pulmões dos chilenos milhares de bombas de gás lacrimogêneo.


Beijaço em defesa da Educação chilena. Foto: UOL
Não há dinheiro para educação pública, mas segue a sangria dos cofres públicos com a enormidade de gastos com aparato repressivo às custas do povo que paga e respeita o gás.


Basta de repressão! Os chilenos jamais serão exterminados, mesmo com a dedicação de seus ditadores e governantes. Pinochet sanguinário fez o que fez. Desde 11 de setembro de 1973 o povo chileno morre e renasce um pouco mais.


É preciso sempre um pouco mais de empenho como los jovencitos como Manuel Gutierrez cantam todos os dias, há três meses, nas escolas tomadas, nas ruas trancadas, nas Universidades paralisadas.


Camila Vallejo, Presidente da Federação de Estudantes da Universidad do Chile, inclusive ameaçada de morte pelo twitter. Vamos ver qual a capacidade de proteção que pode o governo proporcionar a ela. A maior proteção segue sendo a visibilidade pública e o enfrentamento ao governo.






Não podem matar a todos. Juntos podemos derrubar todos eles!

“Vamos compañeros, 
hay que poner un poco más de empeño,
salimos a la calle nuevamente
la educación chilena no se vende, se defiende!"


Acessem diretodochile.juntos.org.br

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

2011: Uma nova Primavera dos Povos

Foto: Jose Luis Saavedra
Em 30, 40 anos vão nos perguntar onde estávamos na primavera dos povos de 2011. Muitos de nós dirão que nas ruas! Outros tantos vão levar décadas para compreender o que se passa. Hoje os rebeldes da Líbia avançaram sobre Trípoli. Os indignados chilenos ABARROTARAM a Praça O'Higgins. São magníficos e incríveis dias de Revolução. Lá se vão oito meses desse incrível 2011 que nos marcará por muitos e muitos anos. A rebeldia escreveu as mais importantes histórias da 
humanidade.


O Juntos - juventude em luta está com os pés, olhos e corações no Chile. Leia tudo no blog diretodochile.juntos.org.br com os textos da Nathalie Drumond. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

70 mil guarda-chuvas e um impasse


O sistema educacional chileno é, na verdade, uma enorme cadeia de endividamento geral da sociedade. As mães, pais e os próprios estudantes passam décadas pagando juros a bancos, muito depois de finalizarem seus estudos.

Por Joana Salém Vasconcelos, colaboradora da Secretaria de Relações Internacionais do PSOL

Neste dia 18 de agosto ocorreu mais uma grande marcha em Santiago do Chile, convocada por professores, estudantes secundários e universitários, em defesa da gratuidade na educação pública chilena. Piñera encomendou chuva, e conseguiu neve! Nevou em Santiago durante 30 minutos, no bairro de Las Condes e Vitacura (os bairros mais ricos), enquanto a marcha prosseguia no centro da cidade, debaixo de muita água e de um vento polar. A sensação térmica foi de 3 graus.
Mesmo assim, 70 mil pessoas compareceram às ruas para demonstrar sua persistência de lutar por democracia real. Um oceano de guarda-chuvas. Menos faixas, e mais capas plásticas.  Uma forte convicção presente: a educação gratuita é uma condição básica da democracia, e o povo chileno não vai desistir de conquistá-la. Igual, prossegue a intransigência brutal do presidente Piñera. Ontem, o Ministro da Educação, Felipe Bulnes, reafirmou a proposta do governo: fiscalizar o lucro, criar uma superintendência responsável pela fiscalização, ampliar bolsas, abaixar os juros. Leia-se: legalizar o lucro, criar um novo órgão burocrático para alojar mais um empresário da educação no governo, criar melhores condições de endividamento dos jovens chilenos. O impasse se aprofunda.

O Financiamento das Universidades

Atualmente, 40% dos estudantes universitários chilenos já não podem pagar suas dívidas. Baixar os juros, afinal, é uma medida necessária para permitir que o endividamento ocorra em condições favoráveis ao credor, do contrário serão dezenas de milhares de moratórias. O sistema de financiamento estatal da universidade chilena é feito de dois modos: direto e indireto. O aporte financeiro direto é o dinheiro que o Estado repassa diretamente às universidades públicas. Esse dinheiro, contudo, representa somente de 30 a 40% do orçamento necessário destas universidades. O resto é “autofinanciado”, ou seja, financiado pelos estudantes. Já o aporte indireto é fornecido pelo Estado para as universidades públicas e privadas, a partir do critério de mérito dos estudantes. São 200 mil estudantes que realizam uma prova nacional, e destes somente os primeiros 27.500 (13%) receberão o aporte. Mas ele é indireto, porque o Estado entrega o dinheiro à universidade, e não diretamente ao estudante. Deste aporte indireto, cerca de 70% se direciona para as universidades públicas e 30% para universidades privadas, que não tem nenhum compromisso de transparência administrativa. O governo Chileno gasta aproximadamente 0,6% do PIB com ensino superior público. Já com educação em geral, somando todos os níveis, gasta cerca de 4% do PIB.



O que é a municipalização da educação no Chile?

A situação é ainda mais injusta com o sistema de municipalização da educação básica, vigente desde 1981. Municipalidad, no Chile, corresponde a bairro. Isso significa que cada bairro é uma unidade orçamentária que financia a educação de um pequeno local. Os bairros de classe alta possuem vastos recursos e pouca demanda de serviços públicos, enquanto os bairros de periferia possuem poucos recursos e uma altíssima demanda destes serviços. A reprodução da desigualdade social, e seu aprofundamento, é perfeitamente garantido por esse sistema, que faz com que nenhum centavo dos ricos circule fora de seus bairros. Ao mesmo tempo, os bairros pobres ficam abandonados à própria sorte, e os professores tem que se virar com recursos escassos para ensinar.

O impasse

A desigualdade educacional chilena chegou ao seu limite. Os secundaristas cantam nas marchas: “Voy repetir, voy repetir!”. Estão dispostos a perder o ano para não pagar mais pela educação. Isso pode significar um colapso parcial do sistema educacional chileno no próximo ano: não haverá novos alunos no ensino médio.  
O presidente Piñera é comprometido intensamente com os setores do empresariado da educação, que mais lucram com o atual sistema. Além disso, por suas origens ideológicas comuns com Pinochet, sua postura intransigente é absoluta. Inábil e ditatorial. Não vai ceder, e ponto.
O impasse a que se chega, então é esse: um governo incapaz de avançar um passo na direção das demandas da sociedade; uma sociedade mobilizada, persistente e convicta, que tampouco vai sair das ruas enquanto não receber uma resposta efetiva de mudança. Só resta saber quanto tempo essa corda será tensionada sem arrebentar. A boa notícia é que a sociedade chilena tem a possibilidade de reconquistar a democracia, que desde 1991 está limitada ao direito de votar.

Fonte dos dados de educação:

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Chile e Israel, qual o próximo povo a dizer chega?


Rodolfo Mohr*

Nossa atividade política está totalmente influenciada pela política internacional. Vivemos tempos de internacionalismo, inclusive e principalmente à margem dos tradicionais esquemas.

Não quero retomar a explanação, superficial ou profunda, sobre os acontecimentos contemporâneos na Tunísia, no Egito, na Grécia e na Espanha. Este quatro países vivem situações revolucionárias. Os primeiros fizeram há poucos meses sua revolução democrática e vivem a dura luta de transição de regime. Os dois últimos são a ponta do iceberg da crise europeia. É na Grécia e na Espanha a contestação aberta e pública aos políticos e aos banqueiros, nesses países se vivem momentos prévios ao de uma revolução, que se pode se consumar ou morrer na casca. Desígnio construído por seu próprio povo, pelo choque direto entre as classes, cada dia mais explicíto.

Quero me referir aos acontecimentos do Chile e de Israel. Antes disso uma rápida citação sobre os EUA.

“AAA ou AA+” o que os povos do mundo tem a ver com isso?

A Standard & Poors é uma agência de classificação de risco que avalia a confiança em relação à dívida dos países e sobre seus títulos, negociados no mercado financeiro internacional. Nesta semana, pela primeira vez, a confiança da dívida dos EUA saiu do patamar máximo AAA para um nível de confiança abaixo, AA+. Desde 1941, os EUA desfrutavam do nível máximo de confiança sobre sua dívida.

A mudança de conceito é decorrente da crise sobre o orçamento dos EUA e o limite de endividamento do país. Uma queda de braço que mais uma vez Obama cedeu aos republicanos. Cortes na casa dos US$ 1 trilhão nas áreas sociais, como previdência e saúde. Com o acordo, aumentou o limite do endividamento dos EUA, que até o fim do ano baterá os US$ 15 trilhões.

Mesmo possuindo o maior PIB do mundo, sendo a principal potência mesmo sensivelmente fragilizada, o patamar da crise econômica nos EUA é de alta magnitude. A cada tropeço desta economia, vemos o mundo financeiro desabar. Bolsas mundo afora tiveram índices de queda nos níveis de 2008. O segundo tempo da crise, que assola a Europa, derrubou ditaduras no norte da África, vem com tudo para arrebentar a economia norte-americana. As soluções são de mais precarização da vida de modo geral. A inflação e o desemprego são problemas globais. 


Nada é como antes
 

No que diz respeito ao Chile, vivemos o segundo capítulo em 5 anos da necessária luta de desmonte do modelo pinochetista de educação. O Chile, sob o comando sanguinário de Pinochet, foi o laboratório do neoliberalismo na América Latina. Não há educação gratuita no Chile, nem mesmo a considerada pública. Em 2006, o primeiro grande enfrentamento direto entre estudantes e governo. “La rebelión pinguina” foi assim chamada pela semelhança do uniforme dos estudantes secundaristas com os pinguins. O mais importante dos avanços de 2006 foi o avanço de organização e consciência, tendo em vista a que o eixo fundamental das mobilizações foi derrotado. 


Após 5 anos, a mudança de governo do social-liberalismo de direita de Bachelet para o conservadorismo com traços ditatoriais de Piñera, os estudantes voltam às ruas. A mudança da situação mundial também é um elemento decisivo. O Chile não é mais uma ilha de intensas lutas isolado num mundo dominado pelo capital financeiro hegemônico. A crise econômica mundial abalou a credibilidade do neoliberalismo. Foi a confirmação do sopro de contestação que representou a luta juvenil no Chile de cinco anos atrás.


Outro elemento é o apoio dos mineiros, trabalhadores que extraem o cobre de minas privatizadas, exportadas quase que exclusivamente para os EUA, que em última instância beneficiam a elite dos minérios ligada a outros negócios internacionais.


E não se esqueçam da comovente experiência de 2010 no meio do deserto. Os mineiros se tornaram imbatíveis, imortais. A luta sobre-humana pela vida, que os mineiros soterrados e presos em uma mina a 700 metros de profundidade mexeu profundamente com os chilenos. Piñera e seu governo desfrutaram do prestígio do resgate, porém não apagaram o descaso do próprio poder público que permitiu tal situação. Sim, a negligência e as tragédias ligadas às privatizações são responsabilidades do poder público, dos governantes, sem que isso anistie os capitalistas que não propiciam as mínimas condições de trabalho. Vide exemplo brasileiro, dos trabalhadores engolidos pela terra nas obras do metrô de São Paulo em 2007. Muitas indenizações dos mineiros soterrados ainda não foram pagas, nem mudaram substancialmente as condições de trabalho nas minas.


Em relação ao Chile tivemos a possibilidade de vivenciar in loco. A presença da Fernanda Melchionna, vereadora de Porto Alegre do PSOL, em Santiago por uma semana foi fundamental para que tivéssemos um relato vivo e instantâneo. Apresentamos ao conjunto da esquerda brasileira a necessária tarefa da mobilização no Brasil de apoio direto ao Chile. A mudança na situação mundial e a força da internet nos permitem isso de maneira muito distinta, única na história da civilização. Nunca o internacionalismo esteve tão presente. Nisso o youtube, o facebook e o twitter nos ajudam e muito. 


Temos o dever de pressionar o Estado chileno, através de seu Embaixador, seus consulados e adidos diplomáticos para que cesse a repressão. Já são quase 900 estudantes presos, outros tantos incalculáveis feridos e alguns poucos mortos. A barbárie é a resposta de Piñera às reivindicações, que se restringem a gratuidade da Educação. Algo universalizado pela Revolução Francesa de 1789   e que os neoliberais trataram de sacar em tantos países do mundo.


"Gente de Israel, vocês que estão hoje reunidos nas praças de suas cidades. Esta é uma mensagem de esperança e de solidariedade desde o movimento 15-M na Espanha"**

Agora, a notícia que faz a gente balançar na cadeira é de que não menos de TREZENTOS MIL israelenses ocuparam as ruas das principais cidades de Israel.


Não há muro da vergonha que esconda dos israelenses o que se deu logo ali, no norte da África. Os jovens desempregados e sem futuro de Israel viram como se faz grandes transformações. São como a geração à rasca portuguesa e os indignados espanhóis. Possuem curso superior, não tem emprego para todos e aqui se agrega a falta de moradia. São empurrados para cada vez mais longe de Jerusalém. A disparada inflacionária do valor dos aluguéis e dos bens de consumo básico viraram suas reivindicações principais.


As mobilizações começaram com um boicote convocado pelo Facebook ao requeijão, tradicional item de consumo em Israel. Havia tido um aumento de 70% e os primeiros protestos fizeram o preço cair 25%. O requeijão seguiu inflacionado mas mostrou que era possível mais.


E assim se construiu os primeiros acampamentos em Jaffa, as portas da velha Jerusalém. O movimento cresceu e tomou outras tantas cidades do país como Tel Aviv, Beersheva e Kfar Saba. 


"Nos dizem que somos um exemplo para os árabes mas hoje é ao contrário, são nosso alento"**

A ofensiva militar de extermínio da Palestina pelo estado de Israel, como parte da dominação imperialista na região, já não é mais aceita como antes. O processo revolucionário do mundo árabe, ainda em curso na Líbia, Síria e outros, é um novo fôlego à resistência palestina, mas também um oxigênio às consciências democráticas israelenses. A crise econômica mundial teve início nos EUA, mas já não se pode dizer que tem pátria. A frase em destaque é de uma jovem acampada em Jerusalém mostra que o ódio sionista aos árabes perde influência na juventude precarizada.


A mobilização em Israel dividiu o governo Netanyahu. Enquanto o Primeiro-Ministro reconheceu a crise imobiliária e sugeriu a construção de 20 a 30 mil moradias, o Ministro da Economia Yuval Steinetz, um inimigo público do movimento, disse que a solução de Netanyahu era “demasiado cara”.

Mais uma vez a impossibilidade dos governos darem respostas concretas ao povo acerca dos efeitos da crise econômica. Austeridade tornou-se lugar comum, palavra e política amplamente rechaçada pelos sem teto, sem trabalho, sem salário, sem futuro.


Qual o próximo capítulo? O 15 de outubro vem aí

Agora é questão de tempo e de organização. Quais serão os próximos países a se levantarem contra seus governos e os donos das economias que gerou a crise?

O impasse fundamental da crise iniciada em 2007/8 está longe do fim. Os capitalistas apresentam fórmulas que mantém seus lucros e oneram mais os trabalhadores e a juventude. A roleta russa do mercado financeiro mundial segue a mesma dinâmica, agora com menos lacunas no tambor do revólver. 


É necessário que consigamos estar abertos aos novos tempos e propor uma verdadeira saída global. Hoje, a plataforma 15M na Espanha, movimento que construiu o Democracia Real Ya, propõe medidas e atitudes globais. Convocaram para 15 de outubro um acampamento mundial de praças por Democracia Real. Não sabemos quem são pessoalmente, que time torcem e nem quais suas bandas preferidas. Lemos os seus manifestos, vemos suas manifestações e nos identificamos com suas lutas.

Aceitamos no Brasil esse chamado. Queremos ampliar a convocatória. É hora da união dos indignados e das indignadas. Estamos ressignificando a história. Construindo outro futuro. Aqui no Brasil já há um primeiro esforço de convocatória unificada para o 15.O. Ali estão expressas as lutas dos indignados brasileiros conectados com os indignados mundo afora.


Devemos preparar as praças de todo o Brasil. A partidocracia que governa o país está mais preocupada com a alta dos juros para beneficiar os investidores estrangeiros do que com os anseios populares. Estão mais preocupados com a queda da Bovespa do que com os miseráveis brasileiros. Segue gente morrendo de fome e de frio no Brasil continental. No calor dos hotéis e apartamentos de luxo segue se rifando o destino do planeta.



* Rodolfo Mohr estuda jornalismo e é do Juntos. Diretor de Movimento Sociais da UNE e do PSOL-RS.
** Retirada do site do El País. http://www.elpais.com/articulo/internacional/indignados/Israel/elpepuintori/20110721elpepuint_7/Tes