segunda-feira, 4 de abril de 2011

Lixo Extraordinário

Filme extraordinário, história ordinária.

Sim, a pobreza e a miséria no Brasil são fatos corriqueiros, previnidas pela invisibilidade.

O filme de Lucy Walker que tem Vik Muniz, artista plástico brasileiro, como condutor é avassalador.

Muniz é condutor porque os protagonistas são os catadores de materiais reciclados, já que lixo não se reutiliza, como disse Tião Santos, Presidente da Associação dos Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, no Programa do Jô.



Até o começo do filme eu nutria um preconceito do desconhecido, tema tratado no filme também, sobre o lixo como matéria-prima para as artes plásticos. De fato, imaginava um monte de coisa entulhada, retorcida, esparramada numa sala de exposição climatizada em qualquer capital do mundo. Coisas que até eu podia fazer, então desconsiderava e ponto.

Só que o projeto de Muniz de ir ao maior aterro sanitário do mundo, conhecer o lixão que reduz o homem, o urubu, os ratos, os porcos e o lixo em uma mistura disforme, em movimento, com um cheiro inimaginável, se tornou numa experiência emocionante.

Em dado momento, um dos colaborados de Muniz fala (não com essas palavras) que ao encontrar as pessoas rindo e convivendo fraternalmente pensava que elas fossem felizes. Se deu conta de que para elas, qualquer trabalho digno longe do lixo as fazia nunca mais querer voltar ao Jardim Gramacho.

Essa discussão dos letrados, artistas, dos incluídos no sistema de consumo sobre os miseráveis do lixão é muito ilustrativo. Será que podemos apresentar, nem que por poucos minutos, um mundo totalmente diferente a estas pessoas que terão que voltar ao lixo depois do filme?

Muniz fez a mesma pergunta que eu sempre me faço: se lhe dessem a oportunidade de fazer algo fora do comum por algum tempo e logo depois voltar ao cotidiano, você aceita ou não?

Isso e as histórias e a miséria, é tudo emocionante.

Mas o que mais me chamou a atenção é o Tião, em Londres, chorando após seu quadro ser vendido por 28 mil libras. Ninguém acreditava nele, nem a família. Quando começou com a ideia de Associação, de organizar a luta dos catadores, foi desacreditado. A necessidade o fez continuar. É por isso que eu também decidi me organizar. Precisamos que todos os brasileiros e brasileiras, trabalhadores, pobres, classe média, todos que de alguma forma não aceitam viver como vivem, não aceitam o mundo da miséria, se organizem. E para gente romper o isolamento das pautas específicas, os preconceitos das origens, das linguagens, dos trejeitos, temos que nos aproximar na humanidade e atacar a raiz do problema. O filme não trata disso, mas mostra como nossa luta anticapitalista é tão necessária. Contra os lixões dos rincões do mundo, contra os luxos da minoria.

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