sexta-feira, 17 de junho de 2011

Na avenida Ipiranga

Sociólogo e Direção Nacional do PSOL

Desta vez, eles não venceram. O sinal está aberto para nós. E ainda somos muito jovens.
Acompanho de longe os últimos acontecimentos na PUCRS. Eles são um alento, imagino que para muitos que conhecem de perto essa história. Minha passagem pela PUC foi apenas como  aluno da pós-graduação, e alguns  anos de solidariedade aos diversos movimentos de estudantes que tentaram construir oposições combativos ao DCE. Quem está vivendo este momento ímpar pode considerar-se um agente da história. A pesada roda da mudança parece que não se movimenta, mas, quando rompe a força inercial, cai esmagadora sob as cabeças conservadoras. Isso é o que passa na PUC.
Falo com cautela. Estar longe, fora dos eventos, é algo que recomenda prudência. Tenho acompanhado com curiosidade os informes de camaradas como Rodolfo, Guilherme, via o blog Megafonadores. Vejo que o M89J se converteu na voz coletiva daqueles que por anos lutam por democracia. Democracia Real. Agora e já. E olha como a história anda aos saltos. Em uma semana, o M89J, catalisou o sentimento represado por muitos anos. Como parte de um clima geral, como parte de um desgaste da máfia, a coragem de duas colegas, duas mulheres abriram o caminho para as mudanças. Tábata e Paola, junto aos outras centenas de corajosos decidiram insubordinar-se. Lutaram contra o machismo e a truculência de desequilibrados que hoje organizam a máfia do DCE da PUC.
O DCE da PUCRS famoso por seus golpes sempre se utilizou dos métodos de gangue para manter-se no poder. Conquistado na virada dos anos 80 para 90, a máfia beneficiou-se do refluxo dos movimentos sociais e estudantis para se cristalizar no poder. Nestes anos contou com a complacência da reitoria, que preferia ver um grupo burocrático a arriscar-se enfrentar movimentos mais organizados contra o aumento das mensalidades. Para constranger seus adversários, a direção do DCE [vinculada à ala mais burocrática do PDT] contou com o apoio “parapolítico” de setores violentos das torcidas organizadas. Eram a “tropa de choque”  da burocracia. O DCE transformou, de forma trágica, o movimento estudantil da PUC, num “caso de policia”.
Nos últimos quinze anos, vários movimentos, de muitos bravos ativistas lutaram, da forma como puderam, contra a máfia. Lembro-me do AMEI, no acampamento de 2004 que foi muito forte. Lembro do FALE, na grande vitória do CAAP [Centro de estudantes da Comunicação Social]. Todos muito destemidos. Infelizmente, não houve uma conjunção de fatores capaz de  derrubar a sólida máfia. O que não faltou foi disposição e vontade de lutar.
O desespero da truculência que os delinqüentes apresentaram na noite do enfrentamento físico contra as colegas foi um retrato da decadência do DCE. Como contraponto a essa degeneração de todo o tipo, o registro da agressão, rapidamente tomou as redes sociais[mostrando como esse processo todo esta, literalmente, conectado], gerando uma ampla corrente de solidariedade e simpatia militante.
A reunião que isolou o DCE, na tarde de hoje, 17 de Junho, é um marco dos novos tempos. A participação de vereadores, como o caso da nossa combativa Fernanda Melchionna, foi importante. O que vai decidir, o tamanho e a velocidade dos avanços, será o ritmo da mobilização e a organização do movimento. A nova PUC, indignada, nasce do novo movimento estudantil.  Ao M89J está delegada a tarefa de coordenar democraticamente os próximos passos, com maturidade, respeito às diferenças e radicalidade na ação.
Certamente, os centenas de ativistas que organizaram movimentos contra o DCE, em reuniões clandestinas, atos barulhentos, enfrentamentos com seguranças, ligações anônimas e ameaças, estão com o coração junto ao M89J. Parabéns aos organizadores do Movimento. São um exemplo para dezenas de entidades e DCE´s de universidades privadas controlados por pequenos grupos burocráticos, muitas vezes ligados aos interesses das reitorias. É um grito de liberdade que vai chegar em todo o país.
Fico orgulhoso dos camaradas do Coletivo Juntos! e do PSOL e dos demais ativistas. Desde longe, acompanho com ansiedade os próximos capítulos. No enredo da vida real, em plena Avenida Ipiranga, é tempo de Revolução democrática na PUC.

Um comentário:

daniel caon alves disse...

Belo texto! Lutei com outros companheiros contra a máfia do DCE há mais de dez anos atrás, em 2000. Naquela época, não havia instrumentos da Internet para potencializar nossa voz e nossa luta. No nosso movimento, a partir do CASTA, conseguimos organizar as primeiras eleições para CA da PUCRS com o uso de urna eletrônica cedida pelo TRE. O mais incrível que conseguimos foi unificar estudantes independentes e as diversas juventudes militantes de esquerda - na PUCRS, qualquer racha seria crítico para o movimento (que incluía pessoal da Educação, Psicologia, Serviço Social, Arquitetura e Jornalismo). Foi uma luta muito dura, pois estávamos jogados ao nada, apesar de barulhentos, mas com pouca visibilidade fora da PUCRS. E no final, os mesmos engôdos do DCE, da Reitoria e da PRAC foram utilizados para dispersar a luta e postergar as mudanças. Agora, com certeza não desistimos. Muitos certamente estão acompanhando de perto esta nova mobilização, que espero saia vitoriosa, sem nenhuma concessão, sem nenhum adiamento, pela democracia já, imediatamente.