terça-feira, 9 de agosto de 2011

Chile e Israel, qual o próximo povo a dizer chega?


Rodolfo Mohr*

Nossa atividade política está totalmente influenciada pela política internacional. Vivemos tempos de internacionalismo, inclusive e principalmente à margem dos tradicionais esquemas.

Não quero retomar a explanação, superficial ou profunda, sobre os acontecimentos contemporâneos na Tunísia, no Egito, na Grécia e na Espanha. Este quatro países vivem situações revolucionárias. Os primeiros fizeram há poucos meses sua revolução democrática e vivem a dura luta de transição de regime. Os dois últimos são a ponta do iceberg da crise europeia. É na Grécia e na Espanha a contestação aberta e pública aos políticos e aos banqueiros, nesses países se vivem momentos prévios ao de uma revolução, que se pode se consumar ou morrer na casca. Desígnio construído por seu próprio povo, pelo choque direto entre as classes, cada dia mais explicíto.

Quero me referir aos acontecimentos do Chile e de Israel. Antes disso uma rápida citação sobre os EUA.

“AAA ou AA+” o que os povos do mundo tem a ver com isso?

A Standard & Poors é uma agência de classificação de risco que avalia a confiança em relação à dívida dos países e sobre seus títulos, negociados no mercado financeiro internacional. Nesta semana, pela primeira vez, a confiança da dívida dos EUA saiu do patamar máximo AAA para um nível de confiança abaixo, AA+. Desde 1941, os EUA desfrutavam do nível máximo de confiança sobre sua dívida.

A mudança de conceito é decorrente da crise sobre o orçamento dos EUA e o limite de endividamento do país. Uma queda de braço que mais uma vez Obama cedeu aos republicanos. Cortes na casa dos US$ 1 trilhão nas áreas sociais, como previdência e saúde. Com o acordo, aumentou o limite do endividamento dos EUA, que até o fim do ano baterá os US$ 15 trilhões.

Mesmo possuindo o maior PIB do mundo, sendo a principal potência mesmo sensivelmente fragilizada, o patamar da crise econômica nos EUA é de alta magnitude. A cada tropeço desta economia, vemos o mundo financeiro desabar. Bolsas mundo afora tiveram índices de queda nos níveis de 2008. O segundo tempo da crise, que assola a Europa, derrubou ditaduras no norte da África, vem com tudo para arrebentar a economia norte-americana. As soluções são de mais precarização da vida de modo geral. A inflação e o desemprego são problemas globais. 


Nada é como antes
 

No que diz respeito ao Chile, vivemos o segundo capítulo em 5 anos da necessária luta de desmonte do modelo pinochetista de educação. O Chile, sob o comando sanguinário de Pinochet, foi o laboratório do neoliberalismo na América Latina. Não há educação gratuita no Chile, nem mesmo a considerada pública. Em 2006, o primeiro grande enfrentamento direto entre estudantes e governo. “La rebelión pinguina” foi assim chamada pela semelhança do uniforme dos estudantes secundaristas com os pinguins. O mais importante dos avanços de 2006 foi o avanço de organização e consciência, tendo em vista a que o eixo fundamental das mobilizações foi derrotado. 


Após 5 anos, a mudança de governo do social-liberalismo de direita de Bachelet para o conservadorismo com traços ditatoriais de Piñera, os estudantes voltam às ruas. A mudança da situação mundial também é um elemento decisivo. O Chile não é mais uma ilha de intensas lutas isolado num mundo dominado pelo capital financeiro hegemônico. A crise econômica mundial abalou a credibilidade do neoliberalismo. Foi a confirmação do sopro de contestação que representou a luta juvenil no Chile de cinco anos atrás.


Outro elemento é o apoio dos mineiros, trabalhadores que extraem o cobre de minas privatizadas, exportadas quase que exclusivamente para os EUA, que em última instância beneficiam a elite dos minérios ligada a outros negócios internacionais.


E não se esqueçam da comovente experiência de 2010 no meio do deserto. Os mineiros se tornaram imbatíveis, imortais. A luta sobre-humana pela vida, que os mineiros soterrados e presos em uma mina a 700 metros de profundidade mexeu profundamente com os chilenos. Piñera e seu governo desfrutaram do prestígio do resgate, porém não apagaram o descaso do próprio poder público que permitiu tal situação. Sim, a negligência e as tragédias ligadas às privatizações são responsabilidades do poder público, dos governantes, sem que isso anistie os capitalistas que não propiciam as mínimas condições de trabalho. Vide exemplo brasileiro, dos trabalhadores engolidos pela terra nas obras do metrô de São Paulo em 2007. Muitas indenizações dos mineiros soterrados ainda não foram pagas, nem mudaram substancialmente as condições de trabalho nas minas.


Em relação ao Chile tivemos a possibilidade de vivenciar in loco. A presença da Fernanda Melchionna, vereadora de Porto Alegre do PSOL, em Santiago por uma semana foi fundamental para que tivéssemos um relato vivo e instantâneo. Apresentamos ao conjunto da esquerda brasileira a necessária tarefa da mobilização no Brasil de apoio direto ao Chile. A mudança na situação mundial e a força da internet nos permitem isso de maneira muito distinta, única na história da civilização. Nunca o internacionalismo esteve tão presente. Nisso o youtube, o facebook e o twitter nos ajudam e muito. 


Temos o dever de pressionar o Estado chileno, através de seu Embaixador, seus consulados e adidos diplomáticos para que cesse a repressão. Já são quase 900 estudantes presos, outros tantos incalculáveis feridos e alguns poucos mortos. A barbárie é a resposta de Piñera às reivindicações, que se restringem a gratuidade da Educação. Algo universalizado pela Revolução Francesa de 1789   e que os neoliberais trataram de sacar em tantos países do mundo.


"Gente de Israel, vocês que estão hoje reunidos nas praças de suas cidades. Esta é uma mensagem de esperança e de solidariedade desde o movimento 15-M na Espanha"**

Agora, a notícia que faz a gente balançar na cadeira é de que não menos de TREZENTOS MIL israelenses ocuparam as ruas das principais cidades de Israel.


Não há muro da vergonha que esconda dos israelenses o que se deu logo ali, no norte da África. Os jovens desempregados e sem futuro de Israel viram como se faz grandes transformações. São como a geração à rasca portuguesa e os indignados espanhóis. Possuem curso superior, não tem emprego para todos e aqui se agrega a falta de moradia. São empurrados para cada vez mais longe de Jerusalém. A disparada inflacionária do valor dos aluguéis e dos bens de consumo básico viraram suas reivindicações principais.


As mobilizações começaram com um boicote convocado pelo Facebook ao requeijão, tradicional item de consumo em Israel. Havia tido um aumento de 70% e os primeiros protestos fizeram o preço cair 25%. O requeijão seguiu inflacionado mas mostrou que era possível mais.


E assim se construiu os primeiros acampamentos em Jaffa, as portas da velha Jerusalém. O movimento cresceu e tomou outras tantas cidades do país como Tel Aviv, Beersheva e Kfar Saba. 


"Nos dizem que somos um exemplo para os árabes mas hoje é ao contrário, são nosso alento"**

A ofensiva militar de extermínio da Palestina pelo estado de Israel, como parte da dominação imperialista na região, já não é mais aceita como antes. O processo revolucionário do mundo árabe, ainda em curso na Líbia, Síria e outros, é um novo fôlego à resistência palestina, mas também um oxigênio às consciências democráticas israelenses. A crise econômica mundial teve início nos EUA, mas já não se pode dizer que tem pátria. A frase em destaque é de uma jovem acampada em Jerusalém mostra que o ódio sionista aos árabes perde influência na juventude precarizada.


A mobilização em Israel dividiu o governo Netanyahu. Enquanto o Primeiro-Ministro reconheceu a crise imobiliária e sugeriu a construção de 20 a 30 mil moradias, o Ministro da Economia Yuval Steinetz, um inimigo público do movimento, disse que a solução de Netanyahu era “demasiado cara”.

Mais uma vez a impossibilidade dos governos darem respostas concretas ao povo acerca dos efeitos da crise econômica. Austeridade tornou-se lugar comum, palavra e política amplamente rechaçada pelos sem teto, sem trabalho, sem salário, sem futuro.


Qual o próximo capítulo? O 15 de outubro vem aí

Agora é questão de tempo e de organização. Quais serão os próximos países a se levantarem contra seus governos e os donos das economias que gerou a crise?

O impasse fundamental da crise iniciada em 2007/8 está longe do fim. Os capitalistas apresentam fórmulas que mantém seus lucros e oneram mais os trabalhadores e a juventude. A roleta russa do mercado financeiro mundial segue a mesma dinâmica, agora com menos lacunas no tambor do revólver. 


É necessário que consigamos estar abertos aos novos tempos e propor uma verdadeira saída global. Hoje, a plataforma 15M na Espanha, movimento que construiu o Democracia Real Ya, propõe medidas e atitudes globais. Convocaram para 15 de outubro um acampamento mundial de praças por Democracia Real. Não sabemos quem são pessoalmente, que time torcem e nem quais suas bandas preferidas. Lemos os seus manifestos, vemos suas manifestações e nos identificamos com suas lutas.

Aceitamos no Brasil esse chamado. Queremos ampliar a convocatória. É hora da união dos indignados e das indignadas. Estamos ressignificando a história. Construindo outro futuro. Aqui no Brasil já há um primeiro esforço de convocatória unificada para o 15.O. Ali estão expressas as lutas dos indignados brasileiros conectados com os indignados mundo afora.


Devemos preparar as praças de todo o Brasil. A partidocracia que governa o país está mais preocupada com a alta dos juros para beneficiar os investidores estrangeiros do que com os anseios populares. Estão mais preocupados com a queda da Bovespa do que com os miseráveis brasileiros. Segue gente morrendo de fome e de frio no Brasil continental. No calor dos hotéis e apartamentos de luxo segue se rifando o destino do planeta.



* Rodolfo Mohr estuda jornalismo e é do Juntos. Diretor de Movimento Sociais da UNE e do PSOL-RS.
** Retirada do site do El País. http://www.elpais.com/articulo/internacional/indignados/Israel/elpepuintori/20110721elpepuint_7/Tes

Um comentário:

Ricardo disse...

PARABÊNS RODOLFO BRILHANTE TEXTO!!