quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A pessoa importante


Israel Dutra*

Flávia Castro realizou uma obra épica. Mais que isso: necessária. Sua proposta era ousada e delicada. Contar sua história, a história de sua busca, a partir dos eventos sociais e políticos, não é uma tarefa fácil. Em todos os pontos, tudo se confunde de uma ou outra maneira. E ela não nega tal “confusão”. Ao contrário, oferece intimismo e seriedade, num documentário que desvela mais do que seu roteiro. Toca fundo.
O filme conta, a partir do rico olhar de Flávia, a trajetória de seu pai, o militante Celso Afonso Castro, morto em  circunstâncias até hoje pouco esclarecidas, no ano de 1984.  Tal morte se constitui num mistério insolúvel: Celso Castro e Nestor Heredia, ativistas de esquerda teriam se suicidado dentro do apartamento do ex-oficial nazista residente em Porto Alegre, Rudolf Goldbeck. Ao reconstituir o cenário do estranho “crime da Rua Santo Inácio”, Flávia conclama o que restou da sua família[a mãe, o irmão, a meia irmã, a avó] para testemunhar sobre os valores, as experiências, enfim, a “obra” de Celso Castro.
O dialogo que ilustra melhor o sentido da “busca” é o que ela trava com um chileno. Ao voltar com sua mãe para o Chile, na residência onde tinha morado durante o exílio, Flávia fala de seu pai. Um dos atuais moradores da casa, pergunta, obviamente: - Seu pai foi uma pessoa importante? A resposta também óbvia é a própria “alma” do filme. “Para mim, sim.”

A dimensão da importância. Da grandeza. Das proporções relativas das causas, dos Projetos, das vidas. É disto que trata o filme de Flávia. É um documento sobre um tempo histórico, sobre fragmentos. Celso e sua então companheira, Sandra- mãe de Flávia e João Paulo- eram militantes do pequeno e combativo Partido Operário Comunista (POC). O filme começa com uma reunião de família, em 2002, no entorno do laguinho do Parque da Redenção. A mãe de Celso conta firme a trajetória e os primeiros passos da militância do filho, no tradicional colégio “Julinho”. A força da voz da mãe de Flávia, Sandra, uma mulher emancipada, combativa, vivaz, ganha peso nas entrevistas. Como companheira, amiga de sua filha. As indagações do irmão menor, João Paulo também emocionam por sua autenticidade.
Durante o documentário aparecem importantes personalidades da esquerda. Flávio Koutzii(ex-deputado do PT do RS),o intelectual gaúcho Pilla Vares,  Jean Marc(que tinha sido presidente da UNE e foi também padrasto de Flávia) e até Daniel Bensaid, histórico dirigente marxista francês, que só corroboram a “importância” relativa da atividade de Celso.
O POC se desfez deixando como legado sua  combatividade. Tal herança política que foi fundamental na organização do projeto mais à esquerda dentro do PT gaúcho. Sua adesão à luta armada, orientada pelas teses do seu dirigente internacional Livio Maitán, resultou frustrante.  As chagas desta linha política não se fecharam jamais para o projeto de Celso Castro. Depois de andanças pela Argentina, Chile, Europa, por fim, Venezuela. A volta ao Brasil, em 1979, como parte da luta democrática pela anistia é uma esperança. A vida política da esquerda em torno da formação de um partido operário também o entusiasma. 
Seus últimos dias são controversos. Sua desilusão é notável. Suas últimas cartas reportam à perda da utopia, da magia altruísta.
Moinhos de Vento é o nome do bairro do fatídico crime. Um crime ainda sem desfecho, com toques de “realismo fantástico”. Moinhos de Vento também acompanham na história aqueles que sonham com utopias. O contraste entre o real e o utópico se faz insuportável, por vezes.
O grande do filme de Flávia Castro é a reconstrução de um sentido universal para a sua busca. Uma busca pela Verdade, factual. E uma busca pela justiça, da restituição do sentido de grandeza que podemos dar às nossas ações, aos “nossos” e às nossas trajetórias.

* Israel Dutra é Sociólogo e Mestre em Educação, ambos pela UFRGS. É membro da Direção Nacional do PSOL e colabora com o Rodomundo.

sábado, 10 de setembro de 2011

Coisas dos '90


Ah as paixões da infância
essa coisa arteira que contamina os pingos de gente

essas coisas inacabadas, incertas
que a gente não vê crescer

como era boa a paixão e o amor sem curvas
das crianças que se admiram pela simpatia e pelo cheiro pueril

o amor-imaginação
é uma das coisas que não podem acabar nunca

aquele nervosismo por pensar como seria se um dia tivessemos a chance
bendita

muitas vidas depois
a gente vê de longe, morena, distante

e só sabe que assim como tu
outros tantos e tantas miram à distância