sexta-feira, 27 de abril de 2012

Goleada das Cotas Raciais e o critério de noticiabilidade racista de Zero Hora


Ontem, dia 26 de abril, encerrou-se a votação no Supremo Tribunal Federal (STF), do ação proposta pelo partido Democratas, questionando a constitucionalidade das cotas raciais na Universidade de Brasília, como caso concreto, mas que visava o questionamento global do projeto das cotas raciais nas Universidades Públicas brasileiras.

A goleada de 10 x 0 só não foi maior porque o ministro Dias Toffoli se declarou impedido de votar, já que quando era advogado-geral da União já havia declarado apoio às cotas raciais. Foi mais uma derrota contundente do DEM, partido atolado na areia movediça da corrupção, e o terceiro passo histórico, em menos de um ano, do Supremo Tribunal Federal na consolidação da democracia brasileira, a partir do estabelecido pela Constituição Cidadã de 1988. Afirma ainda uma significativa vitória do movimento negro, na luta por políticas afirmativas que atenuem os efeitos da chaga da escravidão, que perdurou cerca de 350 anos e apenas há 124 declarou a abolição, recentemente em termos históricos. Ainda mais quando a política do fim do império era de branqueamento da população, com políticas afirmativas para atrair imigrantes europeus, em especial italianos e alemães.

Em maio de 2011, o STF reconheceu a união estável entre homossexuais. Esta decisão foi uma conquista marcante para o movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais e transgenêros) contra o preconceito e contra as religiões que os tratam como anormais, moralmente doentes. Realizando anualmente o maior movimento de massas do Brasil, a Parada do Orgulho de São Paulo registrou 4 milhões de participantes ano passado, conseguiram desde a decisão do STF o começo da afirmação de direitos civis fundamentais, ainda sonegados com a não criminalização da homofobia – está parada no Congresso o Projeto de Lei Complementar 122 que trata do tema – e com a ausência de uma educação pública voltada para a diversidade – o governo Dilma cedeu à pressão da bancada evangélica que exigiu o veto ao Kit Anti-homofobia, material didático voltado para a construção de uma educação que combata à discriminação aos LGBTs. Ainda significou um novo impulso para as demandas do movimento. O Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) é o proponente da lei sobre o casamento igualitário civil, que prevê o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Mais informações no site casamentociviligualitario.com.br.



Neste mês de abril de foi declarado legal pelo STF o aborto de fetos anencéfalos. O debate permeado pela moral, religião, ciência e direito conseguiu furar o senso comum conservador, que abordava o tema como a defesa da vida. Onde está o começo da vida? É possível interromper uma vida somente pela vontade da mãe? A sociedade brasileira foi inundada no segundo turno das eleições de 2010, pela visão religiosa, portanto de foro privado, contaminar a esfera pública. José Serra, na ânsia desesperada de angariar o voto da direita mais conservadora, apelou em “defesa da vida” e contra a autonomia da mulher sobre o seu próprio corpo. Os ministros do Supremo por 8 x 2 decidiram pela descriminalização do aborto de anencéfalos, fetos sem cérebro, portando sem vida. Isso potencializou a luta feminista pela legalização do aborto, que esta seja uma decisão das mulheres, amparadas pelo Estado, respeitadas pela sociedade. As mulheres ganharam novo impulso para terem o direito de decidir livremente.

Finalmente, chegamos as edições dos jornais brasileiros de hoje, 27 de abril. Vamos nos deter as duas mais reconhecidas do Rio Grande do Sul: Correio do Povo e Zero Hora. O Correio do Povo utilizou o critério da relevância para escolher sua manchete, Zero Hora optou pela proximidade, nome que se utiliza no jornalismo para o bom e velho bairrismo.

No Correio: “STF vota a favor das cotas raciais”. A imagem destacada na capa é a do índio guarani Araujo Sepetti que protestou pelos direitos indígenas durante a sessão do STF. Além disso, outras chamadas secundários com fotos ou sem, que tratavam do imposto de renda, do Presídio Central e do tema principal da agenda política gaúcha, o pagamento do piso nacional dos professores sob a cartola “Magistério” e sob o título “Cpers/Sindicato acusa o governo”.
Na Zero Hora, a manchete principal: “Estado paga R$ 1.451 a magistério, mas não cumpre a lei do piso”. A foto destacada sob o título “Guardiães do aeroporto” é a imagem de uma ave (falcão ou gavião, não sei a diferença) que caçam passarinhos que atrapalham os vôos do aeroporto Salgado Filho. A notícia mais relevante do país, a votação das cotas no STF é apresentada num canto, entre a manchete e a foto em destaque. Sob a cartola “Decisão”, o título “Supremo aprova as cotas em universidades”.


Poderíamos concluir que para Zero Hora o tema das cotas não são importantes. Entretanto, a essa conclusão só pode chegar o leitor desatento. Aos que acompanham a discussão das cotas sabem que Zero Hora privilegia este como um debate central. Polemizou com a UFRGS, com o movimento negro, com o movimento estudantil e com todos que apoiaram as cotas. Deu voz a meia dúzia de supostos líderes estudantis anti-cotas. O grupo RBS, realizou alguns programas Conversas Cruzadas da TVCom, seu principal programa de debates, para o tema. Hoje, no programa Polêmica da Rádio Gaúcha este foi o tema. O vestibular da UFRGS foi objeto de contestação pelo jornal na edição de 26 de janeiro de 2012, quando foi corrigido o ponto de corte para os vestibulandos cotistas. Em Zero Hora, uma pessoa com a bandeira contra as cotas tem mais visibilidade do que a decisão da máxima corte do judiciário brasileiro. Na matéria da página 36, podemos fazer a análise de conteúdo quantitativa e qualitativa e chegaremos a conclusão da desproporção das fontes e o desequilíbrio anticotas. Zero Hora não faz questão de esconder um critério de noticiabilidade que está acima dos fatos, acima das notícias: o racismo editorializado pela omissão, ocultamento, inversão do secundário e do primário. Temas que estão teoricamente organizados por Perseu Abramo no seu “Padrões de manipulação da grande imprensa”, indispensável leitura para ser aprender ler a grande imprensa.

12 comentários:

Tamirez Paim disse...

Realmente, um descaso. Uma grande mídia que trata questões sociais de modo irrelevante.

Vítor Neves da Fontoura disse...
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Vítor Neves da Fontoura disse...
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Vítor Neves da Fontoura disse...
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Sôr. disse...

Vítor, confesso ter um preparo muito pequeno para rebater uma argumentação do tamanho da tua, e nem é essa a intenção, mas vamos a dois pontos:
O primeiro é bem simples: Não seriam, os negros, minoria na NHL por terem menos recursos para comprar os materiais necessários à prática de hóquei? Concorda comigo que, dos esportes que tu cita, este é o mais caro para ser praticado?

Segundo: Quando tu fala em mérito, desconsidera as origens. E aí eu te pergunto, será que alguém que passa fome tem as mesmas condições de ter um aprendizado de qualidade, que alguém que tem acesso à uma escola de qualidade, revistas, jornais, televisão e pais cultos?
Tu não pode me dizer que os negros têm as mesmas condições que os brancos, tendo estes TODOS (ou praticamente todos) partido da escravidão. Obviamente nem todos os brancos tinham condições iguais, mas se tu analisasse a questão do ponto de vista matemático teria uma situação parecida com a que vou descrever:
Construindo um gráfico de "condições de acesso ao estudo x anos", e comparando negros e brancos, teríamos uma situação inicial onde os negros estão lá próximo do zero e os brancos estão em um ponto muito acima deles. O que ocorreria numa situação dessas é que, para que os negros chegassem à condição dos brancos, o coeficiente angular (nesse caso, o incentivo) da reta deles deveria ser maior do que o dos brancos. Caso contrário, estas retas nunca se encontrariam (é uma questão matemática).
Não é a toa que os negros se encontram tão abaixo dos brancos no Brasil. O que se busca com as Cotas é aumentar o coeficiente angular dessa reta, para que talvez um dia eles possam lutar com as mesmas condições.
E aí sim tu poderia dizer, depois de igualar as condições, que não tem como as etnias ocuparem as mesmas proporções em determinadas ocupações. Só depois de igualá-las.

Vítor Neves da Fontoura disse...
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Vítor Neves da Fontoura disse...
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Sôr. disse...

Sobre a primeira questão, tua resposta me foi muito satisfatória.
Porém, voltando à questão principal, creio que tua visão sobre as cotas contradiz os teus argumentos para a questão do hóquei. Veja bem, tu afirma que “As cotas não são capazes de aumentar o coeficiente angular, pois em nada interferem nas condições desiguais, pelo contrário, apenas as mantém”. Mas antes disso tu também faz a seguinte afirmação “Nascer numa cidade de origem alemã, numa família de origem alemã, convivendo com a cultura alemã é um incentivo para que o sujeito tenha certos hábitos, vocações e interesses. É mais provável que alguém nessa situação prefira chopp à vodka e isso não se deve apenas a questões financeiras”.
E o que eu afirmo é bem semelhante a tua última afirmativa, e por isso eu defendo as cotas, pois acredito que nascer numa família com maiores níveis de instrução, convivendo com pessoas que tem maior nível de instrução, por si só é um incentivo para que o sujeito tenha certos hábitos, vocações e interesses. É mais provável que alguém nessa situação prefira estudar a abandonar a escola e isso não se deve apenas a questões financeiras.
As cotas não devem servir apenas para “aumentar a produção de medalhas e troféus”. Para isso devem ser acompanhadas de outras medidas de afirmação, e aí entraria o “que fazer para dar prosperidade à sociedade”. Porém não posso deixar de vê-las como um primeiro passo para se corrigir uma distorção que pode, e deve, ter sido causada, entre outras coisas, por questões históricas como a escravidão que sempre foram desfavoráveis a apenas um lado.
Muitos dizem que as cotas são absurdas, pois diminui a importância do mérito, acreditando que todos temos capacidades iguais, independentemente de nossa cor. Tu aponta para o fato de que talvez não tenhamos condições iguais e apresenta dados interessantes para embasar isto. Eu prefiro acreditar que todos temos, de fato, condições iguais desde que sejamos criados em ambientes iguais, porém nesta questão racial não fomos, brancos e negros, criados em situações iguais. Em minha visão simplista, é como se fossemos correr uma maratona onde os brancos largaram todos muito à frente dos negros. Sob essas condições, para que haja um “empate” ou o negro tem que ser muito bom e tirar a diferença devido a sua qualidade, ou ele vai precisar de uma ajuda, caso contrário continuará sempre atrás. Pelo visto, a quantidade de negros muito bons não tem sido suficiente nos últimos cem anos. Resta tentar a ajuda...
Fernando Nunes

Vítor Neves da Fontoura disse...
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Sôr. disse...

"Mas ao darmos cotas estaríamos mudando as condições? A família passará a ter um maior nível de instrução, o sujeito passará a conviver com pessoas mais instruídas pois lhe foram dadas cotas?"
Ora, me parece óbvio que sim. De fato ao abrir as portas para a entrada de mais negros na universidade pública, a consequência será mais negros convivendo com pessoas instruídas. Ou tu não acredita que a entrada na universidade contribua para a formação de pessoas mais instruídas?

Resumindo a questão, pois creio que chega um ponto da conversa em que falta uma mesa de bar e umas cervejas geladas para animá-la. Meu problema é que existem dois fatos inegáveis: a escravidão e o atraso imposto aos negros por conta dela, e a total discrepância entre o acesso dos brancos e o acesso dos negros à Universidade pública. Talvez o primeiro problema não seja causa do segundo, mas como parece mais óbvio que seja do que não seja, creio que seja necessário que se busque uma forma de amenizar o segundo problema, já que o primeiro faz parte do passado e não há como repará-lo.

Vítor Neves da Fontoura disse...
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Vítor Neves da Fontoura disse...
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