terça-feira, 18 de setembro de 2012

Os limites do Ocidente

Quero compartilhar uma leitura e uma programa de TV que se cruzam. Assisti a entrevista do jornalista estadunidense Gay Talese, um paradigma jornalístico vivo. Literaturaliza a realidade, sem perder a verdade factual um centímetro. É um apaixonado pela história de anônimos e de não-vencedores. Um jornalista que preza pela verdade, pela descrição, pela abolição do gravador, pela oportunidade do entrevistado dar sua melhor resposta. Não quer saber das estrelas de cinema porque elas não têm nada a dizer. Uma entrevista ao Dossiê Globo News, imperdível.


Vladimir Safatle, filósofo e professor da USP, notabiliza-se pela voz rebelde em meio a uma geração de mornos intelectuais brasileiros. Seu artigo na CartaCapital desta semana, "Cruzadas, novamente", parte dos ataques salafistas às embaixadas dos EUA no Norte da África e no Oriente Médio, fruto de um filme que ridiculariza Maomé. Além de dissertar breve e elucidativamente sobre o que são os salafistas, radicais do islamismo financiados majoritariamente pelo regime monárquico da Arábia Saudita, maior aliado dos EUA na região. Mostra um dos nós do Império, que acaba matando seus próprios embaixadores. Vai além. Aborda os limites da liberdade de expressão, ao falar do filme que justificou o incitamento à violência. E no fim atamos os pontos com a entrevista de Talese. 

Sobre a cruzada ocidental contra o islã, escreve Safatle: "Aqueles que não têm coragem de criticar suas próprias tradições fariam melhor se silenciassem sobre as tradições dos outros" (CartaCapital, edição 715, página 55).

Sobre Fidel Castro, fala Talese: "Os americanos são doentes de negar a grandeza desse homem há 50 anos. Há um dirigente de beisebol em Miami chamado Ozzie Guillén, venezuelano. É dirigente do time Miami Marlins. Há dois ou três meses, ele expressou respeito por Fidel Castro. O dono do time de beisebol queria demiti-lo. Nós falamos da liberdade de imprensa e de liberdade de expressão nos EUA. Pode esquecer. Não foi um Secretário de Estado nem nada: um dirigente de beisebol é que foi repreendido porque disse que respeitava Castro. É a pior coisa que descobri sobre meu país. Queremos liberdade de expressão no mundo todo. Direitos Humanos. Queremos direitos humanos na Síria. Queremos derrubar o governo, derrubar Kadafi, derrubar Bashar Al-Assad... Mas nós, nos EUA, somos hipócritas falando de liberdade de expressão. Sou escritor e jornalista. Todos podem querer falar ainda que não queiramos ouvir o que têm a dizer. A nossa hipocrisia é esta: queremos idealismo no mundo todo, mas precisamos olhar para nós. Precisamos ser mais exigentes conosco, para permitir que discursos não desejáveis tenham a liberdade de ser feitos" (Dossiê Globo News, 04/08/2012, 11:24-12:48).

E dispara: "Não quero cubanos anticastristas de Miami Beach me falando de todas as coisas ruins que Castro faz! Temos Guantánamo na ilha de Cuba. Então, calem a boca agora mesmo."

Passarmos impunes a isso é passarmos impunes ao nosso próprio tempo. O choque civilizatório entre Ocidente, Oriente e o Islã tem servido para enriquecer alguns e matar muitos. Há um sistemático incitamento xenófobo nos discursos oficialistas e da mídia hegemônica. Temos que unir os pontos, os safatles e os taleses. Unir a resistência de lá e de cá. E antes tudo, praticar a autocrítica que nega e revoluciona. Praticar entre nós o que queremos para o mundo. Não se trata de justificar os equívocos de Cuba ou esquecê-los. Mas passa fundamentalmente por saber que Guantánamo, a pior prisão de exceção do mundo, é mantida pelo império da "liberdade". 

Só assim poderemos criticar e lutar contra as ditaduras todas. Desde a sanguinária de Assad à autoritária de Putin. Do nosso lado do mundo, a ditadura do capital financeiro, outrora rotulado de devaneios da esquerda, agora o promotor da maior crise do capitalismo desde 1929, deve ser impiedosamente aniquilada. Sob pena de termos, ao ver o problema dos outros, que engolir o silêncio amargo.

Não se fazem mais jornalistas como Talese. Sorte nossa ter Safatle no Brasil.


A coluna de Safatle citada ainda não está online. Em breve neste link