domingo, 17 de fevereiro de 2013

A rede de Marina

O lançamento do novo partido de Marina Silva ocorreu com a presença de não mais de 450 participantes (somando a imprensa chegaram a 500 presentes), numa espécie de centro de convenções do Unique Palace, luxuoso clube esportivo no Lago Sul de Brasília. Com discursos que criticaram todos os partidos, igualando-os de maneira superficial, e exaltando o poder das redes, o objetivo que mais empolgava os presentes era a candidatura de Marina a presidente.

Logo na chegada os participantes eram envolvidos na acolhida “Identificação dos sonhos comuns”. Um espaço que escutou e identificou os sonhos dos participantes. Melhor momento para ouvir os anseios dos que se mobilizaram para participar do evento. Transparência dos governos, Marina presidente, combate à corrupção, Marina presidente, defesa das florestas, Marina presidente. Esse era o centro, a ideia fixa na cabeça da maioria dos presentes. Por mais esforços que os oradores fizessem pra desmistificar o conceito de “partido de Marina”, era quando se acudia à candidatura que o público se empolgava. Em nenhum momento até às 13h, ao fim da fala de Heloísa Helena ouve êxtase. Havia sim empolgação e alegria nos presentes. Mas no ar também se sentia o tamanho do desafio. “500 mil assinaturas em 3 meses” bradou Pedro Ivo, um dos organizadores. Ademais, notava-se a falta de vida política militante nos presentes. Não havia palavras-de-ordem, cantorias, bandeiras, faixas. Tudo muito asséptico.

Neste ponto percebe-se a ausência mais sentida no Encontro de Fundação do novo partido de Marina Silva: o povo. Um partido estritamente de classe média, de uma juventude asseada, com críticas ao regime político mas com forma moderada. Há também a vanguarda das ONGs, dos pequenos grupos e redes, com farto financiamento estatal e privado. Não há cara, não há cheiro, não há jeito de povo. Os povos da Amazônia não vieram com Marina, pelo menos não in loco. Dois representantes indígenas fizeram discreto uso da palavra, os presentes ovacionaram mais os parlamentares. Não havia camisetas de movimentos sociais, não percebeu-se ativismo de mobilização real. Havia de fato muitos representantes da sociedade civil e alguns membros de partidos. Mas a densidade das figuras é mais econômica e eleitoral do que social. Não há lastro orgânico visível. Na condução dos trabalhos da Rede estão políticos antigos, empresários, ONGs, fundações assistenciais, algumas redes de proteção ao meio-ambiente.


Marina ainda definiu seu partido como o “cavalo de Troia” na esfera partidária brasileira. Apesar do discurso esforçado pró-horizontalismo, de antipartido e de pluralidade, ela é a grande estrela, o que move o ativismo da Rede e nitidamente é superior à nova agremiação. É um partido que se projeta como sujeito político dos usuários de redes sociais. É essa a aposta para se chegar as 556 mil assinaturas necessárias. Pelo menos será essa a legitimidade apresentada caso obtenham o registro eleitoral. Não se expressou a verdadeira máquina de coleta de assinaturas, que publicamente está sob comando da jovem Marcela Moraes.

Heloísa Helena foi a mais figura mais representativa a emoldurar o ápice do autocentramento marinista. O discurso dos oradores não se verificou na prática. As críticas se esvaziam na medida que se observava o plenário. Ao lado direito de Marina, Heloísa, a radical do PT de 10 anos atrás. Do lado esquerdo, Neca Setubal, a responsável pelas ações sociais da família que detém o controle acionário do Itaú. Além delas, Marina adentrou o plenário com mais cinco ou seis pessoas. Entre elas, Domingos Dutra, deputado federal do PT/MA, Jefferson Moura, vereador do PSOL do Rio, Ricardo Young, vereador do PPS de São Paulo. Além deles Walter Feldman, deputado federal PSDB/SP.

Marina abertamente prega a conciliação de classes na encruzilhada civilizatória que vive a humanidade. Diz que o seu novo partido é parte de uma “comunidade de pensamento” com integrantes que seguirão no PPS, PSB, PSDB, cita a presença de Heloísa Helena e de Feldman, como exemplo da pluralidade desse movimento suprapartidário. Expressa que não importa ser situação ou oposição. O que importa é ter “posição”, que pode apoiar ou rejeitar as políticas de Dilma na medida do que é o seu programa. Não poupou elogios aos “avanços promovidos pelos governos do PSDB e do PT”, sem deixar de citar as contribuições do PDMB à democracia. Beirou o patético na semana que o Senado demitiu duas estagiárias por criticarem Renan Calheiros. Mas isso foi ignorado para os encantados marinistas na plateia.

Das falas dos recém-agregados à rede, Heloísa foi a que mais motivou o público. As demais lideranças fizeram falas burocráticas, descritivas, confessionais. Com algum entusiasmo, mas sem a agitação apaixonante, daquela que mobiliza e emociona. Foi Heloísa que revelou através da cortina de fumaça. Não tergiversou. Disse ser uma “soldado de Marina” e que o objetivo dela e dos demais presentes era oferecer o nome de Marina ao Brasil em 2014. O público a seguiu cantando “Brasil urgente, Marina presidente”. Única palavra-de-ordem proferida na parte da manhã.

Jefferson Moura prestou-se ao pior papel do dia. Após a enxurrada generalizada de críticas aos partidos de maneira abstrata, sem citar siglas ou políticos corruptos, do lado de Marina que ficou no PT mesmo após o mensalão de 2005, disparou contra o PSOL. “A direção do PSOL quer passar uma borracha na liberdade do partido”, para em seguida jurar fidelidade à nova sigla, logo após ter feito uma piadinha, citando seus novos correligionários Ricardo Young e Walter Feldman: “Tenho orgulho de ser vereador da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, com todo respeito aos meus amigos paulistas”. Os ex-militantes dos partidos mais sujos do Brasil não usaram seus ex-partidos como alvo, esse papel só se prestou Jefferson Moura.

Até o fim da manhã o Encontro juntou no máximo 450 presentes. Os mestres de cerimônia destacaram o caráter de autoconvocação, que as pessoas presentes pagaram sua passagem, hospedagem e alimentação. Ainda se destacou a equidade de gênero entre os oradores, complementado pela fala que afirmou que terá também equidade racial. O banner principal do evento possuía a hashtag #RedePróPartido. Apresentaram depoimento de Gilberto Gil e Wagner Moura, este último ferrenho militante da campanha de Marcelo Freixo. Em suma, há uma evidente estética progressista, jovial, conectada, internética, que tem interface com o projeto do PSOL. Isso não pode ser ignorado. Porém, é só a casca. Precisamos fazer a crítica de fundo, de programa, de estratégia, do ecletismo teórico que produz mais uma legenda eleitoral, mas que diferente das outras, tenta ocupar nosso espaço eleitoral, levou HH e vai interferir na disputa do ideário dos que negam a polarização PT-PSDB. A fundação da rede de Marina reafirma a necessidade construção do PSOL, como uma alternativa real da esquerda socialista e democrática para o povo brasileiro.

3 comentários:

Robson Gibim disse...

É o que se pode chamar de aberração política:
Não têm trabalhador, só classe média e ONG...Não levanta as bandeiras históricas e classistas dos movimentos sociais (como o próprio movimento de seringueiros que deu origem a Marina), mas faz um discurso "anti-partido", de conciliação de classes e de capitulação ao PT-PSDB. Enfim, uma Rede de Ricos, que só é capaz de pescar gente muito alienada.

Adailzo Santos disse...

Muito bom registro, e coincide com boa parte da minha opinião sobre o evento (é bom por ser bom, não por por coincidir, rs).
Apesar de ser um caminho pragmático (e pragmatismo é bom), temo que a conciliação de classes da Marina gere um conflito de interesses, pra não falar em rabo preso (isto é, senti certa angústia ao ver um Setubal coladinho na Marisa).
Embora "palavras-de-ordem, cantorias, bandeiras, faixas" esteja longe de ser qualidade política (vejo como recurso emocional e não gosto - sem querer contrariar, porque sei que militante adora), realmente, faltou o povo ali.
Isso porque o fato é que não se pode falar de democracia de facebook. O perfil dos usuário das redes sociais é totalmente diferente do eleitorado. Não são as mesmas pessoas. O povo não está no facebook.

Mario Neto disse...

Depois que li que haviam 450 a 500 pessoas no lançamento, nem me dei o trabalho de ler o resto. Quem não sabe contar, com certeza também não sabe escrever.