terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Tim Maia vale tudo

Vale Tudo. Venha o que vier. A biografia de Tim Maia, incrivelmente escrita por Nelson Motta, não poderia ter título melhor. A vida de Sebastião Maia é uma montanha-russa onde o sucesso, as drogas e todo tipo de loucura são tanto o alto, como o baixo.

Dono de uma voz poderosa e estilo único, consagrou-se como Tim Maia do Brasil, por ele mesmo, pelo público e pela crítica. Motta caracteriza e exemplifica a cada capítulo o estilo Maia de ser. Infância e adolescência na Tijuca, aventura nos EUA, algumas curtas temporadas na cadeia, Tim tornou-se o “punk do funk” brasileiro segundo Cazuza. É uma história predestinada desde à Tijuca dos anos 50. Na pensão da sua família, Roberto e Erasmo Carlos comiam e compartilhavam com Tim, antes do sucesso absoluto. A convivência com Jorge Benjor desde o princípio das trajetórias musicais transformou a Zona Norte do Rio num espaço de explosão musical que contaminaria o Brasil inteiro.



Dono de um humor particular, turbinado e modificado pelas atividades de triatleta do whisky-maconha-cocaína, Tim era seu próprio empresário. E, às vezes, delegava a função a qualquer um que atendesse o telefone da sua casa. Na mesma medida que era contratado, tornou-se o mais anárquico e autocentrado músico da sua geração. Ia aos shows que queria. Fugia sempre que a chapa esquentava. Só recebia em dinheiro. Não ia as audiências na justiça das dezenas de processos que sofreu e impetrou. Foi sacaneado, sacaneou, viajou de um lugar para o outro instantaneamente. Indignado com Londres, foi a Paris. Em 24 horas, odiou Paris e o amor por Londres voltou imediatamente. Esse turbilhão de emoções produziu “big hits” que sacodem pistas de dança até hoje. Mesmo que não seja mais tão reproduzido nas rádios, nas festas e nos artistas contemporâneos, Tim é um artista absolutizado por si mesmo, pelo talento total, pelo estilo, pela filosofia Maia “tudo é tudo e nada é nada”, pelas frases de efeito, pelo humor autodestrutivo, mesmo quando inocente. Nos início dos anos 1990 foi contratado pela Brahma para realizar 60 shows por todo o país. Antes do show, orientou sua banda – a Vitória Régia – a não cometer nenhuma loucura, pois tinham uma longa estrada em show realizados pela Brahma. E lá pelas tantas soltou uma das suas tiradas corriqueiras. “Obrigado a Brahma, mas eu gosto mesmo é de guaraná Antarctica”. Tim foi substituído por Roberto Carlos. E ele já havia feito coisas do tipo. Ao ser premiado seu discurso de agradecimento resumiu-se a “eu fiz uma propaganda da Mitsubishi, mas a Sharp mora no meu coração”.

A grandeza de Tim ultrapassou a ira dos empresários e daqueles que o processaram e saquearam muito do patrimônio conquistado pela voz imensa e poderosa. O povo amava Tim. Reconhecia-se. Era a expressão musical de alto nível e alto reconhecimento público da vida real. Gordo e preto, fugia do estereótipo da beleza em qualquer momento da sua época. Sofria de amor, escrachado, descolado, falava tudo que vinha na telha. E foi um dos primeiros – se não o pioneiro – a enfrentar o poder das grandes gravadoras. Criou a Seroma, sua editora musical, e registrou todo o seu trabalho. Foi uma das estrelas da CPI na Câmara Federal que tratou dos Direitos Autorais. Escrachou ECAD, rádios e televisões. Odiava jabá. Explodia na sala dos Presidentes das gravadoras. Foi contratada pelas cinco grandes do Brasil, rompeu com todas. Construiu no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio, casa-estúdio-zoológico próprio. Apaixonado por cães, bebida, drogas, mulheres e música, sintetiza as facetas de um país inteiro. E a autoridade que conquistou foi sempre usada para chutar o balde.

E na ausência sempre havia sua presença. Seu pública era ensandecido. Pagava o que fosse para vê-lo explodir uma festa. E quando Tim faltava o público rotineiramente tentava depredar o local, vaias homéricas, porém nunca à altura dos efusivos aplausos que o consagraram em centenas de espetáculos.

Motta realiza uma biografia linda, detalhada, expressiva, dessas definitivas. O biógrafo é também personagem. Sua amizade com Tim, as passagens com ele, a cumplicidade com o estilo Maia, os conflitos, as gravações. Foi Motta que juntou Tim a Elis, num episódio épico, num encontro de titãs da música brasileira. Conta a vida de Tim como partícipe e observador. A pesquisa é vertical, profunda. São tantos e tantos detalhes, sempre relacionado ao momento da música e da situação política do país. Isso sem ser enfadonho e com aquele descritivismo chato e sem graça. E a linguagem do livro é a linguagem Maia: sem papas na língua. Sem melindres. O que torna a leitura fluida e voraz. Tim Maia vale tudo. O preço do livro, a leitura, revisitar sua obra. Vale ler cantando. É possível realizar um show de 5 horas com megasucessos próprios de Tim ou imortalizados por ele. As novas gerações merecem conhecer, reconhecer e cantar Tim Maia, mesmo que muitos novinhos e novinhas já o façam sem saber. Tim vale tudo.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

A rede de Marina

O lançamento do novo partido de Marina Silva ocorreu com a presença de não mais de 450 participantes (somando a imprensa chegaram a 500 presentes), numa espécie de centro de convenções do Unique Palace, luxuoso clube esportivo no Lago Sul de Brasília. Com discursos que criticaram todos os partidos, igualando-os de maneira superficial, e exaltando o poder das redes, o objetivo que mais empolgava os presentes era a candidatura de Marina a presidente.

Logo na chegada os participantes eram envolvidos na acolhida “Identificação dos sonhos comuns”. Um espaço que escutou e identificou os sonhos dos participantes. Melhor momento para ouvir os anseios dos que se mobilizaram para participar do evento. Transparência dos governos, Marina presidente, combate à corrupção, Marina presidente, defesa das florestas, Marina presidente. Esse era o centro, a ideia fixa na cabeça da maioria dos presentes. Por mais esforços que os oradores fizessem pra desmistificar o conceito de “partido de Marina”, era quando se acudia à candidatura que o público se empolgava. Em nenhum momento até às 13h, ao fim da fala de Heloísa Helena ouve êxtase. Havia sim empolgação e alegria nos presentes. Mas no ar também se sentia o tamanho do desafio. “500 mil assinaturas em 3 meses” bradou Pedro Ivo, um dos organizadores. Ademais, notava-se a falta de vida política militante nos presentes. Não havia palavras-de-ordem, cantorias, bandeiras, faixas. Tudo muito asséptico.

Neste ponto percebe-se a ausência mais sentida no Encontro de Fundação do novo partido de Marina Silva: o povo. Um partido estritamente de classe média, de uma juventude asseada, com críticas ao regime político mas com forma moderada. Há também a vanguarda das ONGs, dos pequenos grupos e redes, com farto financiamento estatal e privado. Não há cara, não há cheiro, não há jeito de povo. Os povos da Amazônia não vieram com Marina, pelo menos não in loco. Dois representantes indígenas fizeram discreto uso da palavra, os presentes ovacionaram mais os parlamentares. Não havia camisetas de movimentos sociais, não percebeu-se ativismo de mobilização real. Havia de fato muitos representantes da sociedade civil e alguns membros de partidos. Mas a densidade das figuras é mais econômica e eleitoral do que social. Não há lastro orgânico visível. Na condução dos trabalhos da Rede estão políticos antigos, empresários, ONGs, fundações assistenciais, algumas redes de proteção ao meio-ambiente.


Marina ainda definiu seu partido como o “cavalo de Troia” na esfera partidária brasileira. Apesar do discurso esforçado pró-horizontalismo, de antipartido e de pluralidade, ela é a grande estrela, o que move o ativismo da Rede e nitidamente é superior à nova agremiação. É um partido que se projeta como sujeito político dos usuários de redes sociais. É essa a aposta para se chegar as 556 mil assinaturas necessárias. Pelo menos será essa a legitimidade apresentada caso obtenham o registro eleitoral. Não se expressou a verdadeira máquina de coleta de assinaturas, que publicamente está sob comando da jovem Marcela Moraes.

Heloísa Helena foi a mais figura mais representativa a emoldurar o ápice do autocentramento marinista. O discurso dos oradores não se verificou na prática. As críticas se esvaziam na medida que se observava o plenário. Ao lado direito de Marina, Heloísa, a radical do PT de 10 anos atrás. Do lado esquerdo, Neca Setubal, a responsável pelas ações sociais da família que detém o controle acionário do Itaú. Além delas, Marina adentrou o plenário com mais cinco ou seis pessoas. Entre elas, Domingos Dutra, deputado federal do PT/MA, Jefferson Moura, vereador do PSOL do Rio, Ricardo Young, vereador do PPS de São Paulo. Além deles Walter Feldman, deputado federal PSDB/SP.

Marina abertamente prega a conciliação de classes na encruzilhada civilizatória que vive a humanidade. Diz que o seu novo partido é parte de uma “comunidade de pensamento” com integrantes que seguirão no PPS, PSB, PSDB, cita a presença de Heloísa Helena e de Feldman, como exemplo da pluralidade desse movimento suprapartidário. Expressa que não importa ser situação ou oposição. O que importa é ter “posição”, que pode apoiar ou rejeitar as políticas de Dilma na medida do que é o seu programa. Não poupou elogios aos “avanços promovidos pelos governos do PSDB e do PT”, sem deixar de citar as contribuições do PDMB à democracia. Beirou o patético na semana que o Senado demitiu duas estagiárias por criticarem Renan Calheiros. Mas isso foi ignorado para os encantados marinistas na plateia.

Das falas dos recém-agregados à rede, Heloísa foi a que mais motivou o público. As demais lideranças fizeram falas burocráticas, descritivas, confessionais. Com algum entusiasmo, mas sem a agitação apaixonante, daquela que mobiliza e emociona. Foi Heloísa que revelou através da cortina de fumaça. Não tergiversou. Disse ser uma “soldado de Marina” e que o objetivo dela e dos demais presentes era oferecer o nome de Marina ao Brasil em 2014. O público a seguiu cantando “Brasil urgente, Marina presidente”. Única palavra-de-ordem proferida na parte da manhã.

Jefferson Moura prestou-se ao pior papel do dia. Após a enxurrada generalizada de críticas aos partidos de maneira abstrata, sem citar siglas ou políticos corruptos, do lado de Marina que ficou no PT mesmo após o mensalão de 2005, disparou contra o PSOL. “A direção do PSOL quer passar uma borracha na liberdade do partido”, para em seguida jurar fidelidade à nova sigla, logo após ter feito uma piadinha, citando seus novos correligionários Ricardo Young e Walter Feldman: “Tenho orgulho de ser vereador da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, com todo respeito aos meus amigos paulistas”. Os ex-militantes dos partidos mais sujos do Brasil não usaram seus ex-partidos como alvo, esse papel só se prestou Jefferson Moura.

Até o fim da manhã o Encontro juntou no máximo 450 presentes. Os mestres de cerimônia destacaram o caráter de autoconvocação, que as pessoas presentes pagaram sua passagem, hospedagem e alimentação. Ainda se destacou a equidade de gênero entre os oradores, complementado pela fala que afirmou que terá também equidade racial. O banner principal do evento possuía a hashtag #RedePróPartido. Apresentaram depoimento de Gilberto Gil e Wagner Moura, este último ferrenho militante da campanha de Marcelo Freixo. Em suma, há uma evidente estética progressista, jovial, conectada, internética, que tem interface com o projeto do PSOL. Isso não pode ser ignorado. Porém, é só a casca. Precisamos fazer a crítica de fundo, de programa, de estratégia, do ecletismo teórico que produz mais uma legenda eleitoral, mas que diferente das outras, tenta ocupar nosso espaço eleitoral, levou HH e vai interferir na disputa do ideário dos que negam a polarização PT-PSDB. A fundação da rede de Marina reafirma a necessidade construção do PSOL, como uma alternativa real da esquerda socialista e democrática para o povo brasileiro.