terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Um rolezinho em 1997*

“Vai, cara... vai... vai... vai, porra. Ai, caralho. O troço acendeu. Queima, filho da puta! Corre, porra. Vambora. Acelera. Acelera essa merda.” A essa altura já tinha batido o arrependimento da morte. Nunca assumiram quem sofreu primeiro. Foda-se. Tanto faz. Alguém mesmo se importa?

“Não vão nos achar nunca”.


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A turma tava ouriçada. Alucinada. Adrenalizada. Não sei se eles estavam sob efeito de qualquer coisa ou só vontade de aventura. Tinham uma vida bem boa, queriam curtir ao máximo. Estavam sempre juntos. Eram cinco amigos que se encontraram para dar um rolê, um giro pela cidade. Queriam se divertir, falar alto, cantar alto. Tênis de marca, carro do ano, camiseta de grife. Se fosse nos dias de hoje diriam que eles queriam ostentar. Não se dizia assim naquela época, talvez usassem algum sinônimo. Não tinha rede social, youtube, música de gente querendo curtir uma vida de rico. A televisão dava bola nenhuma para isso.

Em 1997 o que bombava era o Edmundo no Vasco, que naquela Brasileirão quebrou o recorde de gols em um único campeonato. Foram 29 gols do Animal. O Ronaldo estava virando fenômeno. Nesse ano, que a ostentação não era manchete, o que estrelava o noticiário eram as delícias do FHC. Uma fórmula infalível para quebrar o país, que nos venderam como se fosse ceia de natal. A Vale foi vendida em 1997. Que ano mágico.

Nossos cinco super heróis nunca tinha visto a nave bigbrother, nem nada. Só a da Xuxa e nem gostavam de lembrar que tinham gostado disso um dia. Queriam apenas se divertir. Quatro já eram dimaior, só um dimenor.

Vários deles ouviram dos seus pais que brincar com fogo resultava em xixi nas calças. Naquela noite resultou em crueldade. Os cinco jovens embarcaram na nave de um deles em Brasília. Encontraram um homem dormindo sob a marquise de um ponto de ônibus. Galdino pataxó não sobreviveu àquele rolezinho.

Hoje em dia, na era das redes sociais, correntes de ouro e tênis da moda, ainda não são para qualquer um. Não basta ter dinheiro, tem que ter CEP.

Um deles passou até em concurso público. Nenhum deles tem antecedentes criminais. Alguém mesmo se importa?

A mesma justiça, finalmente, quer acabar com o rolezinho.





*Ficção e a vida real misturadas.

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